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13.9.10

Sobre Cães e Porcos no Reino dos Céus

É muito interessante de se observar, como pensado por um professor meu, a relação indivíduo-sociedade, e por meio dela entender o mundo. Sem querer entrar no mérito de quem gera quem, ou o que gera o que - caso semelhante ao do ovo e da galinha - o fato é que aparentemente a sociedade produzirá o indivíduo conforme seus parâmetros e suas aspirações, de modo a não só perpetuá-la, mas também a lhe render os devidos avanços (convenientes). Assim sendo, encontraremos nas cidades-Estado da Grécia antiga o cidadão, o indivíduo de formação exigente que se encaixará naquela sociedade. Na Cristandade Medieval, os camponeses, os clérigos e os nobres guerreiros, cada qual com o seu papel a desenpenhar naquela sociedade. E no Brasil, a julgar pela cultura popular divulgada e orquestrada pela grande Mídia, o "tigrão", a "cachorra", cada qual no seu respectivo quadrado,vez por outra reunidos num "bonde". Que sociedade se constrói com isso? No máximo, uma festa em algum Apê...

Achei apropriado usar essa análise para tentar decifrar algo que já me incomoda a tempos, digamos, uns três ou quatro retiros de carnaval. Talvez o leitor já deva ter ouvido os termos-chave "cão" e "porco", como modelos de funcionário ideal de uma companhia. Eu os ouvi, mas não nesse sentido. Os ouvi como modelos de membros de uma igreja ou departamento de igreja. Somente recentemente fui descobrir, para a minha surpresa (ou não) o sentido originalmente empresarial. Logo, ao se utilizar a mesma linguagem na empresa e na igreja,é de se pensar: a igreja é uma empresa? Ou seria a empresa um tipo de igreja?

Para se entender um pouco melhor o que estou querendo dizer, transcreverei os sentidos atribuídos as figuras destes dois animais.

O cão simbolizaria o funcionário comprometido com a empresa, que a defende com unhas e dentes, que apenas produz e sob hipótese alguma, não a questiona, assim como um bom cachorro deve fazer com o seu dono. Como o cachorro, deve lamber o seu dono apesar das pauladas que recebe, e deve defendê-lo de qualquer ameaça. Parece se tratar de um pastor alemão, não dum vira-lata como o guardião do palácio deste basileu que escreve este texto, mas isso não vem ao caso. Em contrapartida, temos o gato, preguiçoso, conveniente e esperto demais (isso mesmo), um exemplo de como o funcionário não deve ser.

O porco simbolizaria o funcionário disposto a dar o próprio "couro" pela companhia em que trabalha. Assim como o porco, que deve morrer dando a sua carne para o consumo alimentício, tal funcionário deve estar comprometido com sua empresa. Comprometido, e não meramente envolvido, como a contraparte do porco, a saber, a galinha, que contribui somente com o seu ovo, ou seja, com o que não lhe é dispendioso. Muito embora ache eu que o ovo da galinha é uma contribuição muito superior à carne prejudicial do porco, mas isso também não importa.

Bem, então, como isso se aplicaria à igreja? Muito simples: apenas substitua as palavras "funcionário" e "empresa/companhia" por "membro" e "igreja/departamento/obra", respectivamente. Pronto. Estamos diante do indivíduo ideal para a igreja hodierna: um funcionário, não-questionador e apenas cumpridor de tarefas determinadas pela sua instituição, pela qual irá lutar e defender com disposição semelhante a de um patriota pela sua pátria.

Assim, é de se entender melhor o que vem ocorrendo nas igrejas. Dessa sua divisão engessada e taylorista que são os departamentos, a Obra. De como o ambiente que deveria ser familiar, místico e sagrado, torna-se profissional, utilitário e profano.

Numa igreja assim, os heróis serão aqueles que melhor encarnarem o ideal moderno de produção. Emergem os ultra-pregadores e tele-evangelistas, que com os sistemas por eles encabeçados deverão ganhar milhares de "almas"(números) para "Cristo"(instituição). Emergem os cantores gospel, que com seu talento musical(duvidoso) e imagem, aparecerão no Domingão do Faustão e no Programa Raul Gil divulgando o "evangelho"(outra vez, instituição).

Em contrapartida,os profetas - os verdadeiros, não os advinhos - os filósofos, os astistas reais - ou seja, não-gospel - , os Estadistas, nenhum deles será bem vindo, devido ao seu péssimo hábito de pensar e questionar. Serão tidos como não-produtivos e logo censurados. Como se vê, nesse insano sistema utilitarista, o nível de produção é o árbitro de tudo.

Não é de se admirar as inúmeras vezes que o leitor provavelmente já ouviu os nomes de Morris Celuro, Rick Waren, Marco Feliciano e Aline Barros. De mesma forma, não é de se estranhar a aparente estranheza como que o leitor encarará os nomes León Tolstói, Dietrich Bonhoeffer, Ricardo Gondim e João Alexandre.

Então, voltamos ao nosso ponto de partida: seria a igreja uma empresa? Ou seria a empresa um tipo de igreja? E aqui está o elemento aterrador disso tudo. Nesse sistema, aos poucos, perde-se a distinção dessas duas. O preço do formato empresarial na igreja é - e parece que poucos se dão conta - caríssimo, como quase tudo no mercado. Ao ouvir que devemos ser como cães e porcos, vêm ao meu pensamento um dito de Cristo:

"Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedaçem." (Mateus 7.6)

Isso explica a nossa desacralização, a ponto de nos confundir a uma instituição como é uma empresa. Tornamo-nos em cães e porcos. E aprentemente esse é o tipo de indivíduo que querem as igrejas.

3 comentários:

  1. (demorei pra conseguir postar comentário aqui D= - altos bugs com o blogger O.o)

    A primeira coisa em que pensei quando li o título foi o versículo lá de Mateus do sermão da montanha. Aliás... esperava que o assunto fosse esse, e não sobre empresas/igrejas O.o

    Mas concordo: impressionante como justamente os animais que Jesus "denegriu" (ee, convenhamos, a bíblia inteira sempre xinga eles como sendo imundos e Devil at 4) são os animais com que as empr... err... digo... igrejas hoje querem que nos pareçamos. Irônico, não?!?!

    R$

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  2. Eu acho interessante a idéia de que tudo pode ser bom ou ruim dependendo do aspecto que se olha.

    Ser porco (em contraste a imagem empresarial acima) pode ser sinonimo de ser sujo e bagunceiro (e viver num chiqueiro), assim como ser gato (em contraste a mesma coisa) pode ser sinonimo de ser bonito.

    Me lembra uma piada que talvez eu já tenha contado sobre um irmão que sempre resmungava dos outros dizendo "olha lá aquela irmã, a saia dela ta acima do joelho", aí vinha outro e dizia "não, mas ela ora bastante e lê a Bíblia"; ae vinha o primeiro e dizia "olha aquele outro irmão, que tem cabelo grande", aí chegava o segundo e dizia "não, mas ele canta bem e é honesto".

    Dali a pouco o resmunguento se irrita e diz "ta, daqui tu vai dizer que até o diabo tem qualidade", ao que o segundo responde de pronto "trabalhador ele é :P".

    ________________
    Sobre o foco do texto (que com certeza não é o que eu citei acima): enquanto a igreja for um clube gospel, institucionalizado, com cargos que aparentemente definem o 'nivel de unção' de cada um, esse é o tipo de sistema que vamos encontrar.

    Quando a igreja não for mais formada por mecanismos, ou por instituições, mas por pessoas de verdade, de carne e osso, unidas em função de alguma coisa (que, espera-se, seja Deus :P) pra trabalhar "por um mundo melhor" (por maaais romantica que seja essa visão)... aí sim, vai ser como um pedaço do céu =DDD

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