Pesquisa neste blog =D

24.12.11

Ah, O Natal

Hoje é vespera de natal e por um estranho acaso esse ano eu não vim preparando minha alma desde uns 10 dias antes pra chegar emocionado nesse dia. Inclusive esqueci meu aniversário até que chegasse o dia (20 de dezembro).

Nesse tempo todo mundo fica mais em paz, mais feliz, mais reflexivo, como se essa época fosse uma grande nostalgia de algo que ninguém viu acontecer (a não ser quem estava vivo há cerca de 2000 anos atrás, além de Deus e Seus anjos). Jesus nasceu e, legal, eu também acho bonito esse acontecimento.

E não podemos esquecer do Papai Noel filho da puta rejeitando os miseráveis, presenteando os ricos e cuspindo nos pobres (Garotos Podres, me perdoem o plágio :P). O consumismo, os amigos secretos, os conflitos cotidianos facilmente resolvíveis (sem solução) com uma frase de "feliz natal"... tudo isso é parte do encanto e alienação bizarros que toma conta de todo mundo nessa época.
Santa, am am, sacaram o trocadilho, am am? :P

Mas o natal não poderia ser melhor representado pela história dos três fantasmas de Natal do Ebenezer Scrooge. O velho era um ranzinza estúpido e, derrepente, vira uma pessoa tri legal. Garanto que assim que a neve baixou ele voltou a colocar suas prioridades de acumulação de capital no topo e tudo voltou ao normal... mas não vem ao caso.

Essa é a época das pessoas colocarem as perspectivas pro próximo ano. Até eu faço isso, apesar de ter me mantido esse ano em estado de espera, deixando as reflexões de "como tornar o mundo melhor" em suspensão até dar um jeito na minha própria vida. [Aliás, esse era o assunto que eu estava conversando com o Gabriell ontem, de que muita gente prega na igreja que as pessoas devem trabalhar na igreja e não perder tempo criando um patrimonio na terra, onde a traça e a ferrugem consomem, mas no céu, onde não há corrupção. Putz, não é questão de criar patrimônio na Terra, é questão de ter estrutura de vida. Como eu vou ajudar meu próximo se não ajudo nem a mim mesmo? Pois bem, esse é assunto pra outro post.] Inclusive estou devendo um post "retrospectiva" onde coloco em pauta todos os prós e contras do ano e penso como seguir em frente. Com certeza, e sem ironias agora, esse ano foi bem construtivo, valeu muito a pena.

Mas, sobre as perspectivas das pessoas quanto ao futuro: existe uma grande chance de elas não se concretizarem - inclusive as minhas. Os anos são ciclos superficiais. Ninguém termina o ano de fato. O ano não começa nem termina. Ele só existe no calendário. Na vida real o dia 1 vem 24 horas depois do dia 31, que vem 24 horas depois do dia 30 e assim por diante. Se houvesse uma grande mudança no mundo na virada do ano (como vai ser quando Jesus voltar), concordo que as coisas seriam facilmente transformadas. Mas como é um dia normal decorrido de outro dia normal... não, é muito improvável que mude algo.

Além disso, por mais que as perspectivas venham numa época predeterminada, as grandes mudanças não tem hora pra acontecer. Um filho, um câncer, um acidente, um vicio, um aumento de salário, uma transferência de cidade... muitas das variáveis são menos programáticas que as que planejamos. E por mais que algumas das variáveis sejam planejadas (como uma formatura em um curso), as variáveis indefinidas podem facilmente estragar esses planejamentos - o que você faria se recebesse uma transferência de emprego com um aumento drástico de salário quando está quase terminando a faculdade...? aceitaria a transferência ou terminaria a faculdade? não tem como responder qual opção é a melhor.

Mudando um pouco de discussão: É legal ver a cidade iluminada; é legal ter um dinheirinho extra; é legal ver gente que não via faz tempo, porque tiraram férias e puderam nos visitar; é legal comer comidas divertidinhas; é legal ver tudo meio bobo; é legal fazer cantatas de natal; é legal comemorar um suposto nascimento de Jesus (lembrando que, apesar das minhas arriadas, eu curto essa idéia também); é legal ver gente se dando presentes; é legal comprar um presente pra alguém; é legal ver piadas com papais noeis; é legal ver papais noeis na tv; é legal usar gorrinhos vermelhos; é legal ser normal... sempre lembrando que depois que isso tudo passar e a globeleza começar a sambar em meio aos reclames do plimplim, tudo volta ao normal e continuamos sendo as mesmas pessoas de sempre, tão egoistas, estúpidos, implacáveis, contraditórios, rabugentos e hostis a qualquer coisa não muito comum... e, Deus que nos perdoe, mas somos assim.

Paztejamos

18.12.11

Supernovas - Grandes Fontes de Ferro

Como dá pra ver, ando desenhando bastante. Por enquanto meus desenhos no paint não andam grande coisa... mas acho que  com o tempo e a pratica o traço deve melhorar. To até conseguindo desenhar os personagens de algumas formas que achei que não conseguiria (como sentados à mesa).

Eu sei, as variações quadro a quadro são pouquissimas, dado que eu fiz com ctrl+c ctrl+v :P
Essa tirinha foi inspirada nesse link: http://www.criacionismo.com.br/2011/12/explosao-de-supernova-da-pistas-sobre.html

Alguém comenta aí como a Priscilla ta linda nos meus desenhos... ela se odiou ¬¬ dane-se, não mandei me namorar :P

Paztejam

14.12.11

Um Desenho Non-Sense de Natal que Fiz Agora Por Acaso...

to vendo que pode ficar ruim pra ler... qlqr coisa clica na imagem que melhora =D
Pra ser breve quanto ao assunto: acho ridiculo aquele cara que acha que porque natal é o nascimento de Jesus não se deve ensinar as crianças sobre papai noel e companhia. Meu amigo, me desculpe, enfeitar a casa, montar pinheiro e ligar luzinhas, se tem crianças em casa, é algo fundamental. Aqui em casa agente não se envolve muito nessas coisas mas aqui todo mundo é velho.

O pior é que o cara que acha que não se deve falar em papai noel no natal porque o "verdadeiro sentido é Jesus" nem está sendo coerente. O Nascimento de Jesus nem é tão importante para a teologia cristã. Jesus nem deve ter nascido em dezembro. O Natal cristão é mais uma tentativa Romana histórica (bem sucedida) de aproximar festas pagãs (solstício de verão no hemisfério norte) a eventos cristãos. Então vamos parar de guerrinhas toscas e vamos comer, beber, dar presentes e aproveitar que nessa época pelo menos os carros param na faixa de segurança e um Feliz Natal parece resolver um possível esbarrão no supermercado.

Paztejamos

Minhas Desculpas ao Dia da Bíblia

Há alguns dias atrás eu fiz um post chamado "freak show" que demonstrava meu temor quanto ao dia da Bíblia aqui em Guaíba. Na hora que eu escrevi estava sendo sincero assim como vou ser agora nesse texto.

O dia da Bíblia foi simplesmente sensacional. Tirando umas puxações de saco do prefeito e (principalmente) do vice-prefeito, o evento foi muito construtivo, fez nossa igreja "respirar" bons ares. E digo isso mesmo com o envolvimento das igrejas neopentecostais (que não foi tãããão opressivo quanto eu achei que seria). Acredito que foi construtivo até pras igrejas neopentecostais respirarem um pouco de 'doutrina' (coisa que lhes falta e muito!).

É muito bom colocar os crentes (eu incluso) pra conversar juntos e aos poucos, pela exposição de todas as idéias, chegarmos a um denominador comum. O sábado bastante pregado pelos adventistas (sábado esse que eu simpatizo), por exemplo, é algo que os evangélicos deveriam ouvir atentos, a fim de, no mínimo, guardarem o domingo (porque evangélicos simplesmente não guardam dia nenhum - o que, pelo menos eu considero, é antibíblico).

Foi legal ver que até um pessoal da igreja luterana (que normalmente se excluia desse tipo de ajuntamento) estava lá. Mesmo que a congregação luterana em si não "adira" (passado de 'aderir'...existe essa palavra?) ao movimento, pelo menos alguns representantes estavam, pra demonstrar a simpatia.
Ando praticando meus desenhos no paint :P eu sei que não são uma maravilha, mas com o tempo melhora =D

E quanto aos assembleianos, como demonstra meu desenho, é legal que eles desentoxiquem um pouco, se desfaçam daquele pensamento de que o terno ou a saia é que salvam e que obreiro tem que ser carrancudo e andar com Bíblia de estudo embaixo do braço. Aliás, esse foi o tema de um dos discursos do pastor Gastão, presidente do COPEG (o Conselho de Pastores Evangélicos de Guaíba, que está por trás desse ecumenismo - por que não? - evangélico): de que a Palavra de Deus não está no papel em que foi impresso ou no tamanho da letra, mas no conteúdo intelectual, no texto, na semântica, na interpretação e aplicação da Palavra. Tomara que com o tempo nossa igreja possa se desfazer dessas frescuras, porque bá, as vezes eu fico no limite pra trocar de denominação em função dessa baboseira... e muitos são os que já saíram da igreja em função dessas babaquices.

[A tempo: respeito quem se agarra nessas coisas, mesmo que não goste. Acho bonito e tenho total certeza que Deus aceita o sacrifício da irmã que não corta o cabelo e do obreiro que, mesmo no calor de 40º, se sente no compromisso de botar um terno. Mas quando essas pessoas tentam impôr esse comportamento pra mim a coisa vira de lado. O irmão que se sente mais crente que eu porque faz essas (ou outras) coisas desnecessárias; o irmão que acha que, por eu não botar terno, não posso ser salvo; o irmão que me julga dizendo que se eu botar um piercing ou fazer uma tatuagem estou pecando e vou pro inferno; esse irmão, tadinho, está fazendo como Jesus disse: coando mosquitos e engolindo camelos. A Igreja é o lugar perfeito pra que um cara metaleiro com barba e cabelo compridos e roupas pesadas de couro sente-se ao lado de uma senhora de saia de cabelo branco e divida a Harpa Cristã com ela. É o lugar onde, independente de diferenças, as pessoas podem cultuar a Deus. Assim, o cabelo, o brinco, o piercing ou o terno não são o foco do Evangelho, mas sim o amor, o cuidado, o respeito, os bons costumes éticos e morais. O irmão que guarda aquelas coisas, mas negligencia essas está, no mínimo, com valores invertidos. Enfim... detesto ter que escrever um apêndice enorme sempre que faço comentários que já sei que vão ser mal interpretados.]

Paztejamos

13.12.11

Evidências Arqueológicas do Relato do Êxodo

Achei essa pérola e não tinha como não compartilhar. Eu queria postar no facebook ou orkut, mas como deletei, o blog serve também.

http://questaodeconfianca.blogspot.com/2009/03/o-esquecimento-de-hatshepsut-evidencias.html

Basta clicar no link. Estou com preguiça copiar aqui.
Mas, sinceramente, leia, vale muito a pena. Os detalhes arqueológicos são únicos.

Paztejamos

9.12.11

Freak Show


Passei até tarde hoje com a Priscilla fazendo trufas. Mas não posso deixar de escrever sobre isso hoje ainda.


andei lendo muito o Ryotiras.com e me inspirando nas tiras... mas pena, eu não sei desenhar :/
Amanhã são as comemorações do dia da Bíblia. Ao que tudo indica vai ser um evento legalzinho, com todas as igrejas reunidas tendo uma idéia congregacional. Tudo bem... eu também curto o ideal. Cristãos são melhores (como diz o slogan da festa) quando esquecem um pouco suas diferenças e trabalham juntos em favor de algum propósito. Aliás não só cristãos, mas todo tipo de gente.

Mas o que eu tenho medo é de como isso vai acontecer. Putz, eu tenho um grande temor que as igrejas neopentecostais "tomem conta" do evento. Já é de se saber como eu "A-DO-RO" as idéias dos neopentecostais: tanto a de orações malucas de gente caindo, como de "guerra espiritual paranóica" (como se Deus não fosse mais poderoso que o diabo), confissão positiva, e a tão odiada teologia da prosperidade. Coisas terríveis.

E meu temor não é descabido: os panfletos do dia da Bíblia não falavam em Jesus, falavam sobre a presença de ídolos superstars gospels - gente que, sinceramente, não conheço -, inclusive de um ex-vocalista do Toque no Altar (um grupo aí com sérios desvios teológicos).

Pra mim sinceramente não importa grandes coisa. Neopentecostal ou não, esse evento não vai transformar minha vida. Mas o que eu cismo é que tende a ficar cada vez mais complicado explicar pros outros "a razão da nossa fé" de maneira bem cabida, visto que esses outros estão com cada vez melhores exemplos de horrores ditos cristãos mas que na verdade ensinam exatamente como não seguir Jesus.

Eu sinceramente espero que minha previsão sombria se mostre ridicula e que nada disso aconteça. Tomara Deus que as coisas que me vem na cabeça não se concretizem. Ultimamente aprendi a andar pessimista em relação a ajuntamentos cristãos... quero poder aos poucos me desfazer desse pessimismo.

E, por último, espero que eles não exagerem no som e não passem muito da hora de dormir. Mas isso eu acho que não acontece porque a rigidez da lei parece ser sermpre maior pros crentes - o que pra mim é ridiculo, mas tudo bem.

Paztejamos e boa noite.

6.12.11

Ortodoxia 2 (o 1º não foi publicado no blog e não foi eu quem escreveu)

Sempre soube que nosso posicionamento "herege" fortemente fundamentado na Bíblia - ao contrário de consideravel parte de "doutrinas" vigentes - nos causasse, no fim das contas, encômodo e dores de cabeça. Sempre imaginei que, como se espera em instituições com determinado conservadorismo, nos contrariassem sem nem primeiro tentar nos entender.

E nem me admira que queiram simplesmente nossos corpos, e não nossas mentes, e que, dado o sofisticado instrumento de alienação vigente, rejeitem toda autocrítica como se ela fosse ofensiva - e não construtiva - ao avanço da instituição. (Nem sabem eles que estamos cagando para o avanço da instituição - também minusculamente escrita -, apesar de sempre colocarmos palavras que a apoiem. Ao contrário, somos a favor do crescimento da Instituição, em maiúsculo, mesmo que em detrimento da corporação menor.)
somos como os 300: poucos sem poder guerreando contra muitos poderosos

O que me admira é que distorçam nossas palavras para que pareçam mais violentas - o que de fato as vezes são - e que deturpem nossas idéias, críticas e desabafos, tornando-os blasfêmias aos elevados a título de santo, como se pecassemos não só contra Deus mas também contra o "panteão menor", que se institui em toda religiosidade tradicionalista. Ora, blasfêmia é elevar alguém a título de santo; blasfêmia é corromper as palavras dos próximos de maneira a favorecer interesses; blasfêmia é instituir um "panteão menor" cujas atitudes são isentas de pecados e cujas idéias são "a ordem de Deus na Terra". Voltamos à Idade Média? Voltamos ao antigo Egito? voltamos a um tempo em que se instituiu um sacerdócio 'ordenado por Deus' e que tem a "palavra da verdade" - propositadamente em minúsculo - e ai daquele que versar uma crítica em contrário?

Não se apercebem do paradoxo. Não se apercebem que aqueles que possuem os maiores títulos são os que se menos trabalham. Ou não dispensamos sábados e domingos inteiros - e outros dias da semana também - em atividades eclesiásticas que evidentemente não nos retornam lucro nenhum se não o prazer em ver a atividade bem feita, a satisfação do próximo e o avanço do trabalho? O sacerdócio porém, tirando uma ou outra excessão - justamente mencionada aqui -, nunca vi atuar dessa forma, a não ser quando, depois de tudo pronto, sentam em seus palanques e versam - ou verberam, eu diria, dado o tom de voz usado normalmente - sobre um suposto fundamento que deveria trazer paz e luz, mas que, a cada dia me convenço mais, dependendo da forma como é apresentado, traz é confusão e alienação.

E não que nos importemos com tal paradoxo, porque nossa Coroa não é aqui. Não é pelo mérito que fazemos parte dessa instituição - por mais que achemos que alguns do sacerdócio busquem exatamente isso (ou o que seria expressões como "fazer o nome" ou "pregar bem", se não menções a fama de determinadas pessoas). Gostamos apenas de apontar esse fato pra demonstrar a grandeza da contradição presente na instituição, a fim de fazer o sacerdócio se não se reposicionar, ao menos refletir.

E fiquem atentos os interpretadores compulsivos de indiretas em textos alheios, porque eu, ao contrário de outros mais tímidos (ou mais sábios) entre nós "hereges subversivos", não tenho papas na língua e tenho mais de uma língua pra dobrar cada argumento falacioso e tendencioso contra mim ou contra aqueles que entre nós faz menção às práticas descabidas do sacerdócio ou daqueles que o veneram - substituindo a glória de Deus -, com o objetivo de eliminar as contradições. Interpretadores compulsivos de escritos que não existem e vozes que não disseram, saiam por aí falando o que não falamos, mas não se esqueçam de que terão que prestar contas com Deus pelos seus falsos testemunhos! Vocês que lerem isso saberão que me refiro a vocês e não a outros; e outros que lerem saberão que não me refiro a eles mas a vocês. Porque nos é demonstrado nem o 'glorificado' entre os sacerdote compartilha das fés - ou fezes - dos glorificadores; o santo de vocês crê em Deus e sabe que é pecador, então por que vocês insistem em santificá-lo?

Enfim. Esse é um desabafo sobre um desabafo distorcido. Quem lê entenda. E quem não entender, que pelo menos entenda e tenha convicção que dias difíceis vêm, em que relembraremos a Idade Média e em que uma nova Reforma será instaurada. Eu creio assim, porque tenho uma ingênua fé em que as coisas vão melhorar.

Muitas aqui são as palavras não ditas que vieram a boca mas o dedo não escreveu. Descobri que é sabio deixar certas coisas a serem ditas em seu tempo, a fim de atingir o Propósito.

Paztejamos

1.12.11

E Chegou Dezembro

Estamos quase lá, fim do ano!
Estou contando com isso =D

Esse ano rendeu bastante. To só esperando chegar o fim pra fazer um balanço bem específico e minucioso das minhas experiências. 2011 foi muito bom!

Que dezembro corra, e 2012 venha com tudo.

Paztejamos

19.11.11

A Subjetividade do Discurso Conservador

Participei no Facebook de duas discussões irrelevantes mas que demonstram bem a superficialidade dos argumentos daqueles que perpetuam os costumes antigos de maneira 'doutrinária' (como se fosse pecado andar fora dos costumes).

A primeira discussão tinha a ver com tatuagem. Eu disse que queria uma tatuagem e alguém surgiu contrariando minha vontade baseado supostamente na Bíblia. Seus argumentos se baseavam basicamente em duas idéias bíblicas que são intrínsecamente relativas.

[detalhe importante: não estou dizendo que a Bíblia é relativa. Uma doutrina teológica coerente se baseia em premissas objetivas da Bíblia. O que estou dizendo é que os argumentos a seguir usados para fundamentar uma vida "dentro dos costumes" são eles próprios relativos quanto ao seu sentido, visto que tratam, isoladamente, de idéias contextualizadas temporalmente e que são 'induzidos' - do particular ao geral - da maneira que o discurso convier]

A primeira dizia que "tudo me é licito mas nem tudo me convém". Esse é um argumento de Paulo quando escreve aos Corintios. Para os conservadores, esse argumento é uma forma sofisticada de apontar o dedo e criticar as atitudes diferentes daquelas tidas como "cristãs" pelos membros de determinada comunidade. No contexto, porém, Paulo está tratando do corpo, pregando a santificação, contrastando-a com a prostituição. Além disso, Paulo vinha citando uma lista de atitudes - idolatria, adultério, sodomia, roubo, avareza, etc - que não conduzem ao Céu. Portanto, Paulo estava pregando a Santificação.

A segunda dizia que "A Bíblia é um livro de princípios". Esse ponto não tem uma passagem explícita pra citar, e também é relativamente razo pra usar como argumentação quando dito simplesmente assim.

A segunda discussão que participei tinha a ver com a pessoa não entender como alguém pode se dizer cristão e não viver dentro dos princípios da vida cristã. A discussão fica subjetiva e sem muito o que se colocar de maneira lógica porque nunca se determinam os tais princípios. Os "princípios da vida cristã" é uma outra forma de usar o segundo argumento da primeira discussão.

Vamos, então, tentar esclarecer o que "me é licito mas não me convém" e o que são os tais "princípios da Bíblia" também conhecidos como "princípios da vida Cristã".

Jesus um dia disse que a lei (o Velho Testamento) se resumia em duas Leis Divinas: Amar a Deus acima de todas as coisas e Amar ao próximo como a si mesmo. Deus, quando libertou o povo de Israel do Egito, Ele mesmo entregou uma forma mais específica de como se poderia cumprir essas Leis - a saber, os 10 mandamentos. Moisés, baseado nesses 10 mandamentos e obviamente inspirado por Deus, criou uma infinidade de outras regras.

Assim, os Princípios da vida Cristã, que são os mesmos da vida Judaica, são explicados por Deus como sendo os 10 mandamentos. Qualquer um que não cumpra os mandamentos está pecando. Vamos abstrair idéias como o Sábado nesse texto - já escrevi sobre isso outro dia.

Como o homem é incapaz de cumprir ele próprio todos os mandamentos de maneira perfeita, Deus mandou Seu Filho para cumprí-los em nosso lugar, fazendo salvos a todos os que crerem nessa História. Isso é o Evangelho. Assim, o argumento de que alguém não pode se dizer cristão se não viver nos princípios da vida cristã é mais do que falho, visto que NINGUÉM é capaz de cumprir tais princípios - se alguém o fosse, não precisaria de Jesus, o que é inconcebível.

Quando a questão de "algumas coisas me serem lícitas mas não me convirem": eu acho que é muito mais coerente interpretar que Paulo está dizendo que, por mais que a lei local me dê liberdade pra muitas coisas, se essas coisas forem de encontro aos princípios de Deus (os mandamentos), eu não devo fazê-las. É o caso de algumas coisas da lista que ele cita anteriormente, assim como a prostituição que ele cita a seguir.

Fica aqui, por fim, meu comentário sobre tais argumentos. Ultimamente tenho concluído que muitas das contradições das igrejas por aí a fora - Assembléia de Deus principalmente - é por falta de entendimento de alguns conceitos chave na Bíblia, tais como Justificação, Santificação, Evangelho e Graça. Tenho feito um esforço pra escrever sobre eles de forma que, no futuro, eu possa linkar algum de meus textos quando estiver tentando esclarecer alguma idéia.

Paztejamos

10.11.11

Justificação; e me Desculpem os Ortodoxos

[Esse post é o resultado de um dialogo com o Duilio depois do culto de ceia, quando paramos à sombra de uma árvore no meio do caminho de casa e ficamos por em torno de uma hora falando sobre as muitas coisas da nossa igreja que sempre temos de assunto]

Última Ceia meu pastor fez uma pregação contraditória. Começou o discurso dizendo como os nossos cultos as vezes são frios e ele volta pra casa sem sentir o Espírito Santo - visto que a igreja não ora e nem jejua com determinada frequência - e terminou, dizendo que, para crentes com poder do Espírito Santo não tem culto ruim. O meio do discurso soou um tanto acusador, do tipo que até tem a boa intenção de motivar o crente mas que acaba por colocar um pesado fardo de culpa nos ombros de quem escuta, que fica a pensar "meu Deus, eu não consigo ser assim! :'("

[Antes que as más linguas saiam dizendo que estou criticando meu pastor advirto: sim, estou criticando meu pastor, mas num bom sentido e de maneira cordial. Não estou atacando-o ou desprezando-o. Concordo com boa parte do que ele prega - afinal se não não seria meu pastor - mas as vezes, como é com quase todo mundo de que gosto, discordo de suas opiniões ou discursos. Quanto ao mais, como se sabe, não me importo com o que digam, assumo minhas posições de cara limpa e não tenho medo de mudar de idéia mais adiante, caso minha consciência concorde.]

Terminado o culto, fui falar com o Duilio que, como eu, tinha percebido o 'paradoxo'. O problema surge no que o Duilio chamou de "dedo legislador" - guarde essa idéia, ela vai aparecer de novo.

Antes de tudo eu quero deixar uma coisa clara. O conceito de graça é como o conceito de Pós-Modernismo: na prática ninguém sabe o que é, ou sabe aplicar no dia-a-dia; só sabe que precisa usar pra denegrir a doutrina de outra igreja ou pra criticar o discurso de alguém. Quero apresentar então esse conceito de maneira mais evidente. A Graça de Deus é a nossa Justificação.

Funciona assim: Deus é amor, mas é justiça também e, por sua justiça, não pode aceitar que pecadores entrem em comunhão com Ele. Pra resolver esse empasse, Deus enviou Seu Filho Jesus para viver uma vida sem pecados e morrer em nosso lugar. Isso porque ninguém é capaz de viver uma vida perfeita, sem pecados, sem falhas, mesmo que ore 8h por dia, leia os Salmos todos os dias, dê um dízimo de 20% e jejue 4 vezes por semana. Assim, todo o que crê em Jesus está justificado nEle, e só assim! Pronto, na teoria, estamos entendidos.

O problema é que na vida real os crentes tem um comportamento farisaico do tipo que precisa fazer X, Y ou Z pra "complementar" o sacrifício de Jesus. Isso é o dedo legislador: a "receita de bolo" que o farisaismo evangélico prega quando diz que precisamos orar mais, jejuar mais, ler mais a Bíblia, e - pasmem! - gritar mais glórias a Deus e Aleluias, porque se não o Espírito Santo não opera, os paralíticos não levantam, os mudos não falam e o povo não vê mover de Deus.
___________________________________


Há algumas semanas atrás esteve nos cultos da mocidade o Coral Kemuel, cujo talento musical é indiscutível. Dados a baixa qualidade sonora do ambiente de culto - um ginásio - e a estrutura inadequada de som, levei meus protetores auriculares pra não arrebentar meus ouvidos. O que me chamou a atenção foi a imunidade que eles tinham quanto as roupas que vestiam, francamente pouco 'assembleianas'. Queria que a igreja fosse sempre permissiva nesse sentido, para que eu não tivesse que usar terno com tanta frequência.

Semana seguinte foi congresso dos adolescentes e, num culto que eu não estava - me contaram -, esteve um jovem pregando. Me limito a dizer que ele condenou veementemente os 'usos e costumes' do Coral Kemuel, mesmo sendo ético suficiente pra não cita-los.

O que eu vejo aí? Esse é o grande motivo por que esse jovem estava pregando e não eu. Porque eu não me conformei com esse sistema igrejístico falido que não traz ninguém a luz e que aprisiona pessoas a ritos e costumes que, se não cumpridos a risca, colocam em risco a possibilidade de herdar o céu. Eu não aceitei sem questionamentos a religião em detrimento da Graça salvadora de Cristo que me livra gratuitamente de todo o mal que há em mim sem que eu me esforce para isso (deixei bem destacado o que eu entendo por graça).
___________________________________

A essa altura alguém pode estar pensando "mas então o Jean não ora, não jejua, não lê a Bíblia e nem dá o dízimo?". Na verdade eu oro e leio a Bíblia. O dízimo eu não dou porque não trabalho, apesar de que se trabalhasse direcionaria meu dízimo de maneira bem mais eficiente, entregando como oferta provavelmente pro departamento de música, onde eu sei que as coisas vão ser bem aproveitadas. Quanto ao jejum: raramente... me desculpem os ortodoxos, mas eu jejuo só quando tenho causa bem definida.

Quanto a minha oração, eu não ajoelho e oro naquele formato caricato do assembleiano "Maravilhoso Deus e Eterno Soberano e Grandioso Pai, em Tua Presença nos colocamos nesta hora para exaltar e adorar teu Santo e Bondoso Nome..." NÃO! Eu gosto de orar nas viajens de ônibus enquanto estou olhando pra natureza ou quando caminho sozinho, além de antes de dormir... sempre com meu próprio vocabulário e tranquilo porque estou falando com meu Pai, não com um Senhor Feudal.

Já minha leitura da Bíblia eu faço de muitas maneiras. As vezes eu leio até a hora que dá porque a leitura está interessante; as vezes abro em algum lugar de interesse e acabo seguindo a leitura; as vezes não aguento mais a pregação gritalhada na igreja e leio uma carta pequena (como João II ou Tiago)... Leio conforme me dá vontade.

Mas faço tudo isso porque Deus já me salvou e eu sinto que quero aprender mais de um Cara que gosta tanto de mim que sofreu, se humilhou e morreu por mim. Eu faço tudo isso porque quero retribuir a Graça que Deus me deu de uma forma que eu não sei como e que eu tento sempre encontrar mas que não é suficiente.

Mas me desculpem os ortodoxos se eu não me presto a acordar cedo domingo de manhã porque as vezes estou com preguiça de ir lá na igreja tomar uma representação mal feita da Santa Ceia quando, derrepente, eu estava Sábado de noite comendo um xis com os amigos e falando de Deus de maneira descontraída numa representação muito mais realista e natural do que era a Santa Ceia. E me desculpem os ortodoxos se por acaso eu não me interesso em ir nas orações ou vigilias e virar a noite em sessões horrorosas de choros, orações pentecostalizadas, prantos, profetadas ou hinos em tom menor com natureza emocionante.

___________________________________

Outro tipo de gente pode estar pensando "pelo jeito o Jean vive de maneira muito permissiva, fazendo o que não deve por aí... nesse caso não queremos um libertino no nosso meio!".

Um dos pontos da minha conversa com o Duílio era sobre como os luteranistas (estou distinguindo os luteranos - da igreja luterana - dos luteranistas - fãs de Lutero) se agarram com muita força na graça ignorando a santificação. Quando o Duilio me comentou isso eu disse "então eles não leram Gálatas?!". A primeira citação que me vem a cabeça é o conselho de Paulo pra não dar ocasião a carne aquele que é livre em Jesus. O texto que eu linkei acima (sobre o pós-modernismo) exprime de maneira detalhada a minha opinião sobre Santificação.

___________________________________

Enfim. Ainda preciso fazer ressalvas muito importantes sobre minha opinião sobre uma Ortodoxia mais lógica e rígida. A forma como me refiro aos ortodoxos aqui é evidentemente pejorativa. Os ortodoxos são todos aqueles que olhem enviezado qualquer que pise numa igreja de bermuda ou boné. Aqueles que acham que o terno é a roupa do crente, que quando escutam um sermão calmo e reflexivo chamam o culto de missa e que compulsivamente gritam "glória a Deus" e "Aleluia" mesmo que, a cada grito, nem prestem atenção no que estão dizendo.


Mas virá um texto a seguir sobre os Ortodoxos com letra maiúscula que se importam mais com a opinião de Deus do que com frescuras.

E não posso terminar o texto sem antes dizer que discordo grandemente do meu pastor quando ele diz que acha que nossa igreja tem que "voltar as raízes". Se as origens são zueira e gritaria que supostamente confirmam o agir de Deus, então não devemos voltar as "raízes". Se eu não fosse crente e chegasse na igreja 'tomada pelo espírito', diria, como pressupôs Paulo na carta aos Coríntios, que todos estão loucos. Prefiro dez mil vezes uma igreja onde prevalece o tom reflexivo que nos faz meditar para sermos melhores com Deus e com os outros. Até porque foi nas "raízes" que nasceram as absurdas bizarrices evangélicas como "mulher não pode cortar o cabelo nem usar calça ou brincos" e "homem não pode usar bermuda nem deixar a barba". As raízes são um passado que graças a Deus passou. Agora avancemos, não retrocedamos.

Paztejamos

30.10.11

Mankiw sobre a Discriminação no Mercado de Trabalho

O livro Introdução à Economia, do N. Gregory Mankiw, professor de economia em Harvard e presidente do Conselho de Assessores Econômicos da presidência do governo de Bush é muito genial. Peguei o livro na biblioteca em função da cadeira de microeconomia, comecei a ler desde a primeira página e não parei mais. Simplesmente fascinante! O cara é super didático, com exemplos muito elucidativos e comentários simples que fazem agente 'ter o estalo' e entender o que ele está querendo dizer.

Na parte 6 do livro, Economia dos Mercados de Trabalho, no capítulo 19, Ganhos e Discriminação (página 407 na quinta edição) ele escreve o seguinte texto que reproduzirei na íntegra (espero não ter problemas de direitos autorais, qualquer coisa eu tiro =D).

-----------------------------
Medindo a Discriminação no Mercado de Trabalho

Em que medida a discriminação nos mercados de trabalho afeta os ganhos de diferentes grupos de trabalhadores? Essa questão é importante, mas responder a ela não é facil.

Não resta dúvida de que diferentes grupos de trabalhadores recebem salários substancialmente diferentes, como demonstra a tabela 2 [que vou reproduzir após o texto]. Nos Estados Unidos, o homem negro mediano recebe 21% menos do que o homem branco mediano, e a mulher negra mediana recebe 8% menos do que a mulher branca mediana. As diferenças por sexo são ainda maiores. A mulher branca mediana recebe 23% menos do que o homem branco mediano, e a mulher negra mediana recebe 10% menos do que o homem negro mediano. Se tomados em seus valores absolutos, esses diferenciais parecem evidenciar que os empregadores discriminam negros e mulheres.

Há, no entanto, um problema em potencial com essa inferência. Mesmo em um mercado de trabalho livre de discriminação, pessoas diferentes recebem salários diferentes. As pessoas diferem no montante de capital humano que possuem e no tipo de trabalho que podem e desejam fazer. As diferenças de salários que observamos na economia podem, em certa medida, ser atribuídas aos determinantes dos salários de equilíbrio que abordamos na seção anterior [seção que não transcreverei aqui, mas que evidencia que os salários de equilibrio variam conforme vários motivos]. A simples observação das diferenças salariais entre grupos amplos - brancos e negros, homens e mulheres - não prova que os empregadores discriminem.

Considere, por exemplo, o papel do capital humano. Entre os trabalhadores homens, os brancos têm cerca de 75% mais chances de obter diploma universitário do que os negros. Assim, pelo menos parte da diferença entre os salários dos brancos e os dos negros pode ser atribuída a diferenças no nível de instrução. Entre os trabalhadores brancos, homens e mulheres têm agora quase a mesma chance de obter nível universtário, porém os homens têm probabilidade cerca de 11% maior de cursar uma especialização ou pós-graduação, indicando que parte do diferencial salarial entre homens e mulheres pode também ser atribuída à instrução.

Além disso, o capital humano pode ser mais importante na explicação dos diferenciais salariais do que sugerem as medidas de tempo de instrução. Historicamente, as escolas públicas das áreas predominantemente negras são de baixa qualidade - em termos de despesas, números de alunos por sala de aula e assim por diante - em comparação com as escolas públicas de áreas predominantemente brancas. De maneira similar, há muitos anos as escolas afastavam as meninas dos cursos de ciências e matemática, muito embora essas disciplinas tenham maior valor de mercado do que algumas das alternativas de estudo. Se pudéssemos medir a qualidade e a quantidade de instrução, as diferenças de capital humano entre esses grupos seriam ainda maiores.

O capital adquirido sob a forma de experiência de trabalho também pode ajudar a explicar as diferenças salariais. Em particular, as mulheres tendem, em média, a ter menos experiência de trabalho do que os homens. Uma razão para isso é que a participação feminina na força de trabalho vem aumentando nas últimas décadas. Por causa dessa mudança histórica, a trabalhadora média é, hoje, mais jovem do que o trabalhador médio. Além disso, existe uma grande possibilidade de as mulheres interromperem sua carreira para criar filhos. Por esses dois motivos, a experiência da trabalhadora média é menor do que a do trabalhador médio.

Já outra fonte de diferenças salariais está nos diferenciais compensatórios. Homens e mulheres não escolhem os mesmos tipos de trabalho, e esse fato pode ajudar a explicar algumas das diferenças nos ganhos entre eles. Por exemplo, as mulheres mais provavelmente serão secretárias e os homens mais provavelmente serão motoristas de caminhão. Os salários relativos das secretárias e dos motoristas de caminhão dependem, em parte, das condições de trabalho de cada ocupação. Como é dificil medir esses aspectos não monetários, é também dificil avaliarr a importância prática dos diferenciais compensatórios para explicar as diferenças salariais observadas.

No fim, o estudo das diferenças salariais entre grupos não estabelece nenhuma conclusão clara sobre a existência de discriminação nos mercados de trabalho americanos. A maioria dos economistas acredita que parte dos diferenciais salariais observados pode ser atribuída à discriminação, mas não há consenso a respeito de quanto. A única conclusão sobre a qual há consenso entre os economistas é negativa: como as diferenças entre os salários médios dos grupos refletem, em parte diferenças no capital humano e nas características dos empregos, elas, por si sós, não nos dizem nada a respeito de quanta discriminação há no mercado de trabalho.

Naturalmente, diferenças no capital humano entre grupos de trabalhadores podem, elas mesmas, refletir discriminação. Os currículos menos rigorosos tradicionalmente oferecidos às estudantes, por exemplo, podem ser considerados uma prática discriminatória. De forma similar, as escolas de qualidade inferior historicamente disponíveis para os estudantes negros também podem ser atribuídas ao preconceito das câmaras municipais e dos conselhos de ensino. Mas esse tipo de discriminação ocorre muito antes de o trabalhador ingressar no mercado de trabalho. Nesse caso, a doença é política, ainda que o sintoma seja econômico.

--------------------------------------------------
Em sintese, agora tenho um bom argumento contra anúncios tipo os dos onibus com mulheres brancas e negras comparando seus salários.

Paztejamos

23.10.11

A Lei

O conceito de pós-modernismo é confuso e estrábico - normalmente usado pra fazer críticas ao sistema egoísta e hipócrita de hoje em dia ou pra difundir previsões apocalípticas sobre determinada ação do governo, do povo ou de alguma celebridade - mas tem determinadas coisas que todo mundo concorda. Uma delas é de que vinculado ao pós-modernismo existe um certo relativismo: cada um entende o que lê conforme lhe convém, conforme lhe está na cabeça.

Na igreja a Bíblia é interpretada de todo jeito. Tem igreja que prega prosperidade, tem igreja que prega uma infinidade de regras e tem, inclusive, igreja que não prega nada.

Uma série de acontecidos me fizeram pensar na Lei. Não a Bíblia como um todo, ou o pentateuco, ou os 10 Mandamentos, mas especificamente aquilo que eu preciso fazer pra ir pro céu.

Os luteranos - e os assembleianos normalmente, apesar de na Assembleia de Deus não haver doutrinamento firme - pregam que a lei foi vencida e abolida por Jesus e que, se eu quiser ser salvo, basta a Graça de Deus. Porém, conforme os desdobramentos de Paulo, é necessário que exista uma 'santificação' pra que sejamos aptos a entrar no céu: tanto é que na carta aos Gálatas ele cita um número bem grande de atitudes que certamente não conduzem ao céu (prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas... e assim por diante - não me preucuparei com as definições estritas desses conceitos e, sinceramente, acho que nem Paulo estava preocupado). Paulo chega a dizer assim: "vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pela caridade.". Conforme o Duílio, um amigo que estuda teologia, Lutero preveu isso... mas como os luteranos normalmente não leem Lutero, existe um tipo de 'distorção da doutrina'.

Santificação é um conceito bem simples e que todo mundo concorda que é "ir passando a se comportar com cada vez menos pecados", apesar de todo mundo saber que sem pecados, só Jesus. Porém, o conceito de pecado fica um pouco 'embassado' nessa história. Se abolimos a Lei, como sabemos o que é pecado?

A Lei, a de Moisés, parece ser um desdobramento temporal para os judeus em seus primeiros anos de povo, para que não houvesse muita discussão sobre o que era e o que não era certo. Isso porque acho que qualquer um deve concordar que 10 axiomas - os 10 Mandamentos - dariam espaço pra muita discussão se Moisés não houvesse intervido.

Jesus veio e resumiu a Lei em dois princípios: 1)amar a Deus acima de todas as coisas; 2)amar ao próximo como a si mesmo. Mas isso não quer dizer que os Mandamentos estivessem abolidos: na verdade os Mandamentos eram a forma mais precisa de como as pessoas poderiam crumprir esses dois princípios.

Paulo, quando escreveu Romanos, foi bastante minucioso em relação a Lei - outro dos apóstolos até chegou a advertir a Igreja contra aqueles que distorciam suas palavras, visto que eram bastante complexas. Quando eu estava estudando filosofia cheguei a ter a descrição do meu perfil no orkut com o texto de Romanos 7, do verso 7 ao 25. Mas o caso é que provavelmente eu nunca entendi 100% do que ele quis dizer em Romanos. A parte que me encomodava especificamente era o versículo 31 do capítulo 3: "anulamos, pois, a Lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a Lei."

Como meu pensamento de leitura era voltado ao ideal luterano de anulação da Lei, essa passagem me saltava como "surpreendente". Tipo "como assim?! anulamos a Lei sim senhor!" era o que eu pensava. O caso é que a Lei, mais especificamente os 10 Mandamentos, são aquilo que definem o pecado. Como Paulo diz na passagem que eu usei como descrição no meu perfil, "eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. [...] Assim a lei é santa; o mandamento, santo justo e bom".

As referências aos Mandamentos não ficam só por aí. Assim como Paulo, João diz em suas cartas a Igreja que o Mandamento que ele dá é o mesmo de sempre, o antigo; Davi exalta a Lei em vários de seus salmos e Jesus, ora vejam só, cumpre a Lei.

Uma distinção importante para essa questão, e que eu não posso deixar de comentar é a distinção da lei de Moisés e da Lei maior, os Mandamentos. Como eu disse antes, a lei de Moisés parece ser um desdobramento temporal mais específico para os judeus. Tanto é verdade - ou pelo menos me parece verdade - que no livro de Atos (que eu sinceramente gostaria de chamar de Lucas 2) os cristãos entram em debate sobre o que os gentios convertidos deveriam guardar acerca da lei (capítulo 15). A conclusão: "abstenham-se das contaminações dos ídolos, da prostituição, da carne sufocada e do sangue. Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue e, cada sábado, é lido nas sinagogas."

Dá pra ver que os mandamentos, a que eles se referem como "Moisés" nesse caso, eles tinham quem ensinasse... o problema era entender o que precisava ser cumprido e o que não era. Se Moisés significasse a Lei de Moisés (as 500 e poucas leis do pentateuco), eles teriam que se circuncidar, porque Moisés colocou isso em sua Lei, e foi isso que criou a discussão. Assim, ficamos entendidos que os Mandamentos devem ser cumpridos, e o cumprimento da Lei de Moisés fica resumida a aquelas indicações do parágrafo anterior.

O grande inconveniente dessa discussão toda está num dos mandamentos, o guardar o Sábado. Os Mandamentos são a Lei que Deus escreveu com Seu próprio dedo (ou Sua caneta Divina, tanto faz). Portanto, pelo menos certo "peso" deve haver em guardar o Sábado, visto que não Moisés, mas Deus, sugeriu esse feito.

Alguns avulsos argumentam que Deus estava na verdade dizendo que certo dia, seja lá qual for, deveria ser dedicado a Ele. Os católicos, baseados nas palavras de Justino, um dos "pais da igreja Cristã", do século II depois de Cristo, guardam o Domingo, visto que Cristo ressucitou nesse dia. Conforme Justino:


“Reunimo-nos todos no dia do Sol [o primeiro dia da semana era denominado de dia de Sol no Império Romano até o século IV], não só porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também porque neste mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Crucificaram-no na véspera do dia de Saturno; e no dia seguinte a este, ou seja, no dia do Sol, aparecendo aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes tudo o que também nós vos propusemos como digno de consideração” (Justino I – Apologia Cap. 66-67 : PG 6,427 - 431).
[retirado da wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Justino]

Os evangélicos, acho que até pela falta de firmeza estrutural de algumas denominações, simplesmente abominam quem guarda o sábado por ser "coisa de adventista" (alias, abominam os adventistas também) e ignoram que guardam o domingo. Inclusive, acho que muitos dos evangélicos não sabem que o sábado está nos Mandamentos - e isso não é um insulto e sim uma constatação, visto que eu também faço parte dos evangélicos.

Se o leitor guarda o domingo baseado na afirmação de que foi o dia em que Jesus ressucitou, não há contradição nenhuma em seu pensamento... apenas um problema de 'ortodoxia': essa atitude não consta na Bíblia e não é ensinada por nenhum apóstolo ou escritor do novo testamento (pelo menos até onde eu sei). Já eu, se me permite, estou cada vez mais inclinado a acreditar que Deus, ao se referir ao Sábado, estava falando do Sábado mesmo, da mesma forma que estou inclinado a acreditar na literalidade do dilúvio, acreditar na criação em sete dias, acreditar que as espécies têm cerca de 10.000 anos, etc. Isso porque as conclusões da ciência sobre esses assuntos normalmente são controversas, indutivas, com muitas extrapolações teóricas de modelos que podem com muita chance não estarem corretos... enfim. Para mim, e para um número cada vez maior de gente, as conclusões científicas parecem sofrer variações de cunho ideológico/político que comprometem as verdades por trás dos dados. Porque o que é ciência? uma coisa são os dados que se obtem através dos experimentos, o que ninguém discute; outra coisa são as conclusões que se tira desses experimentos, o que é extremamente controverso. Como disse Pascal, "quase que invariavelmente as pessoas formam suas crenças não baseadas nas provas, mas naquilo que elas acham atraente".

Enfim, voltando ao Sábado. O Sábado traz outro tipo de discussão: dado que é Lei guardar o Sábado, o que exatamente seria esse "guardar"? O Sábado começa ao anoitecer ou a meia noite de sexta? Boa parte dos sabatistas consideram que é ao anoitecer e, assim, apressam ou otimizam seus trabalhos durante a semana para que sexta não sobre serviço e se possa entrar Sábado para Deus. Mas guardar o Sábado é se envolver em um sem-número de não-podes ou tirar esse dia especialmente pra ficar com a família, passear, ler um livro, descansar, meditar, ler a Bíblia? Não sei quanto ao leitor, mas eu gosto mais da segunda opção, até porque sou averso a idéia limitadora que alguns cristãos têm de colocar etiquetas de "não" em quase tudo por aí.

Mas e se houver uma prova, um concurso? ou se trabalharmos como médicos, que não tem hora pra fazer plantão? ou se alguma circunstância nos coloca em necessidade da fazermos alguma atividade no Sábado. Alguns dos sabatistas abrem mão de diversas atividades por estarem contidas no Sábado. O vestibular da UFRGS, por exemplo, começa no domingo para que os adventistas possam participar - apesar de ser o dia sagrado dos católicos, eles parecem não se importar. No ENEM, ao que me disseram, alguns sabatistas entraram no sábado para fazer a prova junto com os outros mas ficaram na sala esperando um 'horário especial', na noite de sábado (que, lembre-se, para eles já é domingo), para começar a prestar o exame.

Sinceramente, eu acho isso complicado. Como diz a Bíblia, o Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado. Pra mim envolve muito uma questão de religiosidade. Eu, por exemplo, estou cogitando o guardar o Sábado faz algum tempo mas, como peguei uma cadeira esse semestre sexta de noite, vou continua-la até o fim. Semestre que vem eu não pego nada sexta de noite, ou faço o meu Sábado valer a partir da meia noite só. O importante acho, pra Deus, é meu interesse de guardar o dia dEle. A Bíblia é cheia de conceitos não extritamente definidos acho que em parte porque Deus quis permitir que nossa própria consciência, moldada pelo Espírito Santo, delimitasse-os.

Ficar o dia todo dentro de uma sala esperando chegar de noite pra poder fazer a prova sábado de noite parece mais perda de Sábado do que fazer mesmo a prova no Sábado. Esse comportamento em muito se assemelha com o daquele casal de crentes, que namora só alguns meses e já casa logo, para poder fazer sexo. Poxa, então faz sexo de uma vez... porque esse casamento tem muita chance de dar errado mesmo. Parece ser tapar um buraco com terra de outro. Acho que Deus é razoável o suficiente pra entender que, não havendo oportunidade de fazer a prova outro dia, a pessoa não teve muita escolha.

Não estou criticando levianamente quem fica lá esperando até de noite. Admiro a determinação do cara. Por Deus, que não é pouca coisa, ele aguarda hoooooooras de tédio (e é chato ficar olhando pras paredes a tarde toda) pra fazer uma prova. Só acho que é um esforço semelhante ao daquelas irmãs que não cortam o cabelo (baseados numa má interpretação do livro de Coríntios): uns fazem, outros não: quem faz, faz pra agradar a Deus, e Deus aceita; que não faz, faz porque tem liberdade em Deus, e Deus compreende (conforme Paulo em Romanos).

Enfim. Admito que já me estendi demais. São duas horas da manhã e eu estou com sono. Essas são reflexões incompletas e é muito provável que daqui a um mês eu já esteja pensando bem diferente. Quem me conhece um mínimo sabe quão volátil são minhas idéias. Mas pelo menos não me submeto a nada que minha consciência condene, que é como Lutero faria.

[o que me dá mais nos nervos é citar essa imensidão de filósofos, teóricos e personagens Bíblicos e fazer pouquissimas ou nenhuma referência a Jesus... até pareço com aqueles outdoors de igrejas neopentecostais sobre cultos de vitória com pastor XYZ - nunca vi o nome de Jesus escrito ali, nem que seja num pequeno letreirinho.]

Paztejamos

22.10.11

Qualquer coisa

Meus pensamentos não andam muito bem ordenados. Eu tenho uma infinidade de pequenas meditações que não chegam a conclusões definitivas (para serem postadas aqui) que acabam ficando perdidas no limbo da minha cabeça ou esquecidas. Daqui há, sei lá, 20 anos quem sabe eu chegue a alguma visão mais completa de mundo.

Enquanto isso, acho que vou postar elas incompletas mesmo, ordenadas da forma como me veio a memória conforme escrevo.

//-------------------------------------------------------------------

Acho que exames como esse ENEM, que tem no fundo o objetivo de fazer com que os pobres cheguem a universidade (e ninguém venha me dizer que o objetivo é só avaliar porque todo mundo sabe que quem faz o ENEM quer mesmo é alcançar o ensino superior), deveriam limitar o número de vezes que os estudantes podem fazer em um. Assim o estudante ia aproveitar o ensino que teve na escola, levar a sério o que está estudando, além de que os pais iam fazer mais esforço pra matricular seus filhos em escolas boas e exigir da escola uma boa educação. Claro, num mundo ideal, eu estou dizendo. Mas o fato é que da forma como é, ninguém que saia do ensino médio leva a sério o ENEM. As pessoas saem da escola e ficam alguns anos a mais estudando antes de fazer o Exame 'as ganha'.

Um livro que eu estou lendo, de microeconomia, diz que existe uma teoria chamada "teoria da sinalização" que sugere que o estudo que a pessoa tem não interfere na sua produtividade. O diploma dela, ao contrário, sinaliza que ela tem talento para área e predisposição a ficar mais tempo estudando para ter um salário melhor. Esse talento sim interfere na sua produtividade.

Não duvido que o diploma seja um bom 'sinalizador', mas não acredito que o tempo que a pessoa passou a mais estudando não ajudou ela a ser mais produtiva. Seja como for, conforme essa teoria, se o ENEM desse uma oportunidade só as pessoas com melhores notas 'sinalizariam' o talento obtendo uma nota maior do que a média da escola em que estuda, mesmo que não obtivessem uma nota boa o suficiente pra concorrer a uma bolsa no PROUNI. Com essa nota, as empresas (ou sei lá mais quem) poderiam enchergar esse 'sinal de talento' e aproveitá-lo pra contratações futuras ou algo parecido.

É claro que esse ponto de vista aplicado ao extremo é um bom argumento para a não aplicação do ENEM e a não distribuição de bolsas de estudo, já que o candidato que tiver talento vai sinalizá-lo de qualquer forma 'dando um jeito' de se formar qualquer que seja a condição (pagar universidade ou entrar na pública)... mas, só estou propondo uma perspectiva diferente.

//--------------------------------------------------------------------

Meu comentário sobre as cotas raciais (um dos ultimos posts) foi conduzido com uma amostra muito pequena. Conversando com meu professor de economia sobre elas, ele disse que, pelo menos na Universidade do Rio (UFRJ) - ele é carioca - o desempenho dos cotistas tem sido semelhante ao desempenho dos não cotistas. Eu não sei quais as fontes dele, mas é interessante ouvir um ponto de vista 'estatístico' contrário ao meu. Apesar disso, minha 'análise' não fica de fora, é razoável (pelo menos na minha cabeça) pensar da forma como propus e, como disse Lutero, é errado ir contra a própria consciência.

Essa história sempre acaba remetendo a discriminação. Eu tenho um trecho, uma 'seção' inteira do livro do Mankiw (o autor - esse de economia que estou lendo) pra citar aqui sobre discriminação. Eu achei ótimo, e uma maneira bem objetiva de explicar as coisas. Em outro post eu escrevo o texto inteiro aqui.

//--------------------------------------------------------------------
 
Bom, acho que vou dormir... to escrevendo alucinadamente aqui, sem pensar muito e to pescando já. Vo lá.
Paztejamos

14.10.11

Matemática Financeira e Cotas

Definitivamente matemática financeira é uma área inferior da matemática.

Eu aprendi os princípios de matemática financeira no cursinho pro concurso do Banco do Brasil. Em suma, juros simples se resume a regras de 3; juros compostos se resumem a uma equação exponencial - como não se pode usar calculadora no concurso, eles optam por te dar uma tabela com os calculos exponenciais, já que ninguém vai calcular qualquer número elevado na 9, por exemplo -; a unica coisa mais complicadinha se chama "anuidades", que é minha modesta preucupação pra quem estuda um dia antes da prova [mesmo assim, acho que com um ou dois exercícios já entrou na minha cabeça].

Ainda assim, os cursos de administração, economia, ciências contábeis e ciências atuariais da UFRGS destinam uma disciplina inteira (UM SEMESTRE!) pra aprender essa matemática. E pior que tem um livro texto inteiro (pequeno, admito) escrito por um professor da UFRGS pra tratar desse assunto. Sinceramente, acho que em um mês dava pra esgotar esse conteúdo. Esse é um dos pontos determinantes pra eu chegar a minha conclusão de que os cursos do campus centro são muito inferiores em exigência do que os cursos do vale (pra quem se quebrou estudando física, as cadeiras da atuária são piada... não estou me gabando, estou comprovando algo MUITO real).

Voltando a matemática financeira: estou tão decepcionado com essa cadeira* (cadeira, caso alguém não sabe, é um sinônimo histórico de disciplina, matéria... não sei se esse termo é regional) que em todas as aulas eu saio imediatamente depois de assinar a chamada. A única aula que assisti até o final foi ontem, que era revisão pra prova sábado.

Pois bem. Nos primeiros dias de aula, quando o professor ainda chegava antes do horário de aula e eu esperava ter uma aula boa, eu chegava cedo e sentava no fundo (agora eu sento perto do professor pra chamada passar mais rápido por mim). Por isso acabei conversando com um colega, que fazia contabilidade. Durante nossa conversa ele fez a seguinte observação: "Bah, o problema dessa cadeira são as muitas fórmulas! tu viu aquelas fórmulas que ele deu na ultima aula?! muito dificil, tá loco!".

A fórmula a que ele se referia é a fórmula da taxa e do período, ambas para juros compostos. Na verdade a fórmula é uma só, "M=C(1+i)ᵗ", só que, isolados a taxa "i" ou o período "t", elas ficam um pouco mais feias. Apesar disso, a única coisa que te pedem é que isole os componentes e coloque os valores dados na fórmula a fim de achar o valor calculado. Se tu não sabes isolar esses termos, por favor, volte pro ensino médio.

O detalhe importante - e é o que me fez contar essa história - é que esse colega era negro. Não que a cor o torne mais burro. É que ser negro e não entender algo trivial nos conduz a uma suposição bem típica do estudante UFRGSense: ele é cotista.


Conheci alguns cotistas durante minha estada na UFRGS. É certo que as cotas aumentaram a 'diversidade acadêmica' - agora se vê muito mais negros do que há alguns anos atrás -, mas o preço disso foi nivelar 'por baixo' a excelência dos alunos. As cotas para estudantes de escola pública tem o mesmo efeito das cotas raciais nesse sentido, mas até aí ainda tem aquela coisa de "ah, o cara não teve oportunidade". Mas quando colocam as raças na história o negócia vira um racismo que não estamos muito acostumados: contra os brancos.

Essas cotas dão um tom estético pra UFRGS: "agora estamos todos misturadinhos", mas só baseado numa coisa: estatística. Como diz um amigo, pro estatistico se eu der dois tiros num pássaro, um 2cms a direita e outro 2cms a esquerda, na média eu acertei o alvo. Claro, porque, se no individual ficou mais dificil para cada branco entrar na Universidade, no total, o branco, que tinha 'mais facilidade na média' acabou ficando nivelado com o negro. Porém, se antes para todos individualmente a dificuldade de passar era a mesma, agora, além de ficar mais dificil para todos os brancos, pros negros ficou tão facil entrar na UFRGS em cursos comuns quanto se não houvesse prova. E essa conclusão pode até ser válida para os cotistas de escola pública também, mas é especialmente válida para os negros porque as médias dos negros são, praticamente sem excessão, inferiores as médias dos de escola pública, dada a pouca concorrência entre eles mesmo.

Qual o desfecho sinistro dessa história? gente mal preparada no ensino médio chegando ao ensino superior sem saber nada. Sabe onde essa gente se dá bem? nessas universidades privadas por aí onde o professor dá a matéria bem mastigadinha e se os alunos não aprenderem fazem abaixo assinado, entregam pro reitor e tiram o professor... isso, lógico, depois de terem feito 3 recuperações, uma para cada área da matéria. Na UFRGS o professor concursado entra lá e não tem quem tire, pode dar a pior aula do mundo e presentear os alunos com a prova mais ralada, mas não tem pra quem chorar. E os cotistas sem firmeza na educação de base vão ter que rebolar em dobro pra conseguir avançar. E é por isso que o meu colega lá acha as fórmulas difíceis, porque provavelmente entrou de cotas e não aprendeu a usar logarítmos e funções exponenciais pra isolar as variáveis.
 
E é evidente, preciso deixar claro aqui, que existem negros inteligentes da mesma forma que índios, árabes, judeus e etc. E quem ler esse texto sem tentar subentender o que eu não disse vai perceber que não estou atacando raça nenhuma. Estou falando que, praticamente sem excessão que eu conheça, tem muito cotista rodando muito até se encaminhar na UFRGS haja vista a falta de educação de base e hábito de estudar que o ensino público (do qual eu também sou filho e conheço) sofre.

Paztejamos

10.10.11

Quando meu Jesus voltar

Os cristãos têm uma Grande Esperança, a maior de todas, que por ser tão fascinante é as vezes escrita em letras maiúsculas: a volta de Jesus nas núvens pra levar os santos pra Glória.

Muitos são os versículos Bíblicos que prenunciam isso. Jesus dizendo que vai nos preparar lugar, o Apocalipse, o livro de Daniel, Jeremias, Isaias, o sermão profético de Jesus, Paulo na carta aos Tessalonicenses... mas, no fundo no fundo tem uma grande divergência entre a interpretação de cada crente em relação a cada texto.

Eu particularmente não me detenho a interpretações específicas: gosto de saber uma gama delas e acreditar que Deus vai fazer o que tiver planejado para o fim. Ele que sabe, não muda muito minha vida saber o processo certo, contando que eu creia e aplique o que Ele ensinou para agora. Como diz uma passagem muito conveniente: "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus".

Mas, e no céu, como vai ser?

Mesmo a Bíblia explicitando que "nenhum olho viu e nenhum ouvido ouviu o que Deus tem preparado para nós", Paulo (ou João, me corrijam aí, to desconfiado que li isso no Apocalipse agora) tentou dar um palpite de como talvez fosse o céu. Ele se conceitrou no ambiente, com ouro e pedras preciosas... beleza, mas não é o mais importante. O mais importante é a nova situação em que vamos nos encontrar, isto é, em Deus.

A glória, o corpo incorruptível, a ausência de pranto ou dor, essas coisas não são o mais importante do céu. Como diz uma música do Arautos do Rei "O céu é aqui se aqui Jesus está". O mais mágico de toda o fim é estar com Deus cara a cara, poder conviver com o idealizador de todo o universo, conversar com Ele assim como converso com um amigo, assim como Adão conversava no Éden, saber que a ordem, criação, estrutura, é dEle, e poder prestar homenagem a quem realmente merece méritos por tudo que houver.

Além disso, o mais maravilhoso é saber que nós que estaremos com Ele no céu nada fizemos pra merecermos estarmos lá. Ele quem providenciou todo um esquema e inclusive sofreu horrivelmente pra que nós desfrutemos de paz e alegria eternas.

Enfim. E quando agente chegar lá, que que eu vou fazer? eu sei que eu vou deixar a multidão de salvos conversar o quanto quiser com o Mestre, e nem posso imaginar com o que vou poder me ocupar lá durante a eternidade... devem haver inúmeras diferentes possibilidades que nem posso imaginar para tornar o céu infinitamente mais maravilhoso que essa existência limitada pela física. Mas quando o Senhor estiver disponível eu quero dar um abraço nEle e chamar Ele pra tomar uma boa chícara de café. Claro, café vai ter no céu, é uma bebida divina. Aí agente vai conversar, vou chamar o Duílio também pra conversar junto com nós, tirar nossas dúvidas, fazer todos os questionamentos possíveis, e existem muitos. O céu é a esperança ingênua do crente por um mundo melhor... mas por ser ingênuo não quer dizer que não exista: como Jesus disse, pra entrar no Reino dos Céus temos que ser como as criancinhas.

As vezes eu vou no ônibus ouvindo a Novo Tempo e quando eu olho pras árvores, céu azul, rios... uma beleza natural maravilhosa. Mas o céu é muito mais que isso, em Deus.

Que essa esperança em mim possa inspirar mais alguém a crer e esperar também por Jesus, e possa transmitir força para viver segundo Cristo, por mais falho que cada um de nós seja. E que esse texto consiga sugerir para aqueles que lêem uma perspectiva diferente do mundo em que vivemos, baseada na fé de que Jesus volta e não vai demorar.

Ora vem, Senhor Jesus.
E enquanto esse dia não chegar, nos dê o amor dos irmãos.

Paztejamos

[o café divino deve ser maravilhoso, sem dúvida]

Não há Misticismo na Realidade?

Há algum tempo conversando com meu irmão, ele estava reclamando que não vê misticismo de fato na realidade tal como é. Ele dizia "como seria legal se a terra fosse plana mesmo e nos extremos houvessem cascatas que desses para o fim do mundo"... coisas desse gênero, coisas que se vê nos jogos ou na Idade Média (ou ainda nos contos a estilo Senhor dos Anéis).

Eu tentei demonstrar que ainda existe misticismo. Apesar dos argumentos não terem sido válidos pra ele, resolvi colocar aqui alguns, e outros que me vieram na cabeça depois.

Primeiro, a Terra é uma grande bola mineral vagando no meio do vazio. Vazio não é bem a palavra, porque existem outros corpos celestes, mas mesmo assim é uma palavra válida porque a densidade de matéria ocupando o espaço é menor do que qualquer vácuo que cientistas tenham conseguido no laboratório.

Segundo que a Terra, em especial, tem algumas peculiares "coincidências". Era de certa forma engraçado quando na cadeira de introdução astronomia o professor dizia que determinados fatos não teriam motivo predeterminado, sendo algum tipo de excentricidade do acaso. Eu e um amigo, o Benhur, sempre nos olhávamos e diziamos "aham, coincidência, sei...".

Por exemplo, o fato de que no céu, para quem olha, a Lua e o Sol tem o mesmíssimo tamanho relativo, mesmo que suas distâncias e tamanhos de fato sejam completamente diferentes, dando a idéia de que os astros se colocaram de maneira precisa nos lugares onde estão. (isso é especialmente evidente nas poucas possibilidades de eclipse total que tivemos, onde a lua faz sombra no sol e tapa ele completamente.)

Outra coisa é as temperaturas médias do verão nos dois hemisférios: no verão do hemisfério sul a Terra está no Periélio, o ponto da órbita em redor do Sol mais próxima do Sol, o que teoricamente deveria tornar o nosso verão mais quente que o do hemisfério norte. Porém, como no hemisfério sul temos mais água, o calor é mais refletido pela maior quantidade de águas, o que deixa o verão do hemisfério sul equilibrado com o do hemisfério norte.

Ainda tem um absurdo de eventos não físicos em que se baseiam crenças de todo tipo; os sonhos, em que a psicologia precisa se aprofundar muito ainda (além de se livrar de maluquices freudianas como interpretações sexuais envolvendo quanquer coisa que tenha formato cilíndrico); além das maluquices experimentais envolvendo água, luz ou fósseis, assuntos em que sempre tem gambiarra/dilemas.

Enfim... esse post foi escrito meio num momento sem tempo e sem muito interesse de escrever bonito, tolerem o autor, ele está com azia, tem umas provas aí, e está escrevendo enquanto conversa com a namorada e assiste a alguns vídeos.

Paztejamos

21.9.11

Tu Já Viste Um Pelicano?

Eu sou um cara bastante cético. Sempre fico na defensiva em tudo que me dizem, por mais convincente que pareça. Na Igreja, na Universidade ou na TV, sempre tento desconfiar.

Meu problema com os ditos céticos do nosso tempo se dá pela seletividade do ceticismo deles. Concordo que questionem o cristianismo, o espiritismo, o judaismo ou qualquer coisa mais... mas por que não questionam a ciência?

Outro dia o Duilio me contou que um conhecido dele deixou de "crer" porque ficou sabendo que cientistas descobriram que existe uma água viva que não morre. Daí ele criou argumentos lógicos que fizeram com que ele deixasse de ser crente. A minha pergunta é: por que ele não desconfiou da tal água viva? por que ele acredita tão cegamente que exista a tal água viva mesmo sem ter ido confirmar? Ou alguém por acaso acompanhou a vida da tal água viva ad eternum pra constatar que ela não morre nunca.

Daí a pergunta-título desse post. Essa é a pergunta que eu faço pras pessoas quando falo de Deus. Davi compara Deus com os montes; João com um Rei; Rob Bell com a música... eu com um pelicano... mas um pingüim (com trema!) também serve.

Tu, querido leitor anônimo que se presta a ler esse blog, já viu pessoalmente um pelicano? tirando excessões estranhas, creio que não. E então, por que crê tão piamente que existam tais seres? Talvez porque tenha o visto nos livros de biologia, ou porque tenha assistido um documentário sobre peixes e aves no Discovery Channel, ou talvez porque quando busque por "Pelicano" no google, haja milhares de resultados. Portanto, se existisse uma grande conspiração mundial pra te convencer que existam pelicanos, quando na verdade eles não existem, tu seria provavelmente enganado.

Note, querido leitor, que os mesmos argumentos para te convencer da existência do pelicano se aplicam a Deus: o número de resultados no google, os documentários (não no discovery, admito, mas em outros canais) e os livros (não o de biologia, mas a Bíblia, como grande exemplo, dentre infinitos outros inteligentíssimos) estão disponíveis.

Todos nós cremos no que quisermos. Eu creio, por exemplo, que os EUA derrubaram as Torres Gêmeas (e não Bin Laden); eu creio que em 1969 o homem não foi na lua (apesar de ter ido mais tarde); e eu creio que é impossível que haja vida em outros planetas. São crendisses minhas e todos podem ter as suas próprias.

Se eu cismar que, derrepente, não existem pelicanos, eu posso. Nada pode me impedir. Enquanto eu não ser convencido pelos meus próprios meios de que existem de fato pelicanos, vou permanecer convicto na minha fé.

[por mais que o exemplo com pelicanos seja esquisito, experimente o teste com outros animais como o dragão de komodo. Vai parecer mais elucidativo pensar nele como um ser que pessoas normalmente não crêem que exista]

Da mesma forma Deus. Por mais que muita gente cisme que Ele não existe, o universo e tudo a minha volta é bastante razoável pra conceber a existência de Deus. Toda vez que os darwinistas salvam a teoria dos fatos, abrindo 'exceções' e ficando 'supresos' com determinadas coisas que no limite demonstram a fraqueza da teoria, minha certeza da existência de Deus aumenta. Quando eu me corto e minha ferida se fecha sozinha, sem eu fazer um esforço pra que aquilo aconteça, minha convicção cresce. Quando as faces Divinas do design inteligente (inegáveis inclusive por ateus) se demonstram - como as rugas nos dedos quando estamos dentro da água ou como o reverstimento do feto para não ser expelido pela mãe - fico mais crente ainda.

Assim, acabo concluindo que o ateismo acaba por ser uma religião. Uma religião não baseada na ciência, mas na convicção dos homens. Ateus não podem se apoderar da palavra 'ceticismo' como se fossem céticos puros. Se o fossem, chegariam a conclusão de que 'não se sabe se há Deus' (ou não chegariam a conclusão nenhuma sobre Deus), o que não parece ser o que diz a própria etimilogia da palavra 'ateu'. Enfim... eu me considero bastante cético, mas me rendo a realidade e constato que, por trás de tudo que há, só pode haver Alguém.

Paztejamos

19.9.11

Os bispos protestantes

Nossa época é marcada por um desconhecimento da história da Igreja no mundo e no Brasil. Alguns conhecem a história do seu próprio ramo do cristianismo, e quase nada dos demais, sejam membros da igreja de Roma ou das igrejas Reformadas (e essa entre si), assim como em relação às igrejas do Oriente: bizantinos, pré-calcedônios, nestorianos e uniatas. Um presentismo secular desconfia de tudo o que significa passado. Com o anabatismo da “reforma radical”, inaugurou-se a visão de uma “apostasia geral da Igreja”, com o Espírito Santo pretensamente se ausentando da história entre Constantino e Lutero. Essa mesma vertente restauracionista foi responsável por uma eclesiologia localista (igreja = comunidade local), bem como pelo dualismo neoplatônico entre “igreja visível” e “igreja invisível”. Para o teólogo Samuel Escobar (FTL), o protestantismo latino-americano foi “anabatistizado”. Com a presença pioneira de congregacionais, batistas e presbiterianos (com suas formas de administração), o episcopado foi associado intrinsecamente com o romanismo, e, como tal, rejeitado. A presença, nas últimas décadas, de “bispos” e “apóstolos” em denominações neo(pseudo)pentecostais tem sido vista ora como imitação do romanismo, como afirmação de poder pessoal, ora como algo pitoresco. Pouca gente se deu conta de que bispos anglicanos (episcopado histórico) e metodistas (episcopado administrativo) têm atuado nesse continente por mais de um século, e que muitas denominações pentecostais clássicas adotam um episcopado administrativo não-nominado (superintendentes, pastores-presidentes). A história atesta que o episcopado foi estabelecido em todos os ramos e regiões da cristandade menos de dois séculos depois da ressurreição do Senhor, se manteve como a única forma por mil e quinhentos anos, é adotado hoje, em suas diversas variações, por noventa por cento da cristandade, e foi tido como compatível com a Reforma Protestante (luteranos e anglicanos), que sua adoção por novas denominações sinaliza a busca do preenchimento de um ministério (“episkopé”) perdido ou distorcido, e que sua aceitação, à luz da experiência histórica e corrigidas as distorções, se constituiria em um passo importante para a saúde espiritual da Igreja. Se a fórmula “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” contou para os Pais Apostólicos e os Pais da Igreja no fechamento do cânon bíblico, na redação dos credos com suas doutrinas centrais, e na formalização dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor, por que o Espírito Santo seria excluído (“pareceu bem apenas para nós”) na definição do episcopado? Seriam as outras decisões “espirituais”, e essa apenas “humana” (dualismo)? Haveria fundamento para a ótica da burguesia do século 16 em reler “presbiterianamente” a Igreja Primitiva, e de setores mais populares fazerem “congregacionalisticamente” o mesmo (com pretensões democratizantes), segundo o contexto secular da época? Sendo uma instituição um ser que requer tempo para a sua formação, não estaria o congregacionalismo absolutizando o “óvulo” e o presbiterianismo o “embrião”, quando o episcopalismo representou o ser já nascido? No início do segundo século, Inácio de Antioquia fazia referência ao tríplice ministério: bispos, presbíteros e diáconos, entendendo os bispos como sucessores do ministério apostólico. O mesmo fez Policarpo de Esmirna, afirmando o ter aprendido com os apóstolos. Com a prática universalmente estabelecida, o episcopado foi alvo de sistematização teórica por Cipriano de Cartago, no terceiro século, com os bispos escolhidos pelo clero e pelo povo e governando de forma participativa. Escreveu um historiador: “Depois da morte dos apóstolos, a responsabilidade apostólica passou a personalidades como Tito e Timóteo, o que representa uma nítida cristalização da função episcopal. No começo do século 2, a estrutura desta função desenvolveu-se plenamente em seu conjunto [...]”. A Conferência de Lambeth, de 1988, define o bispo como sendo: “[...] símbolo da unidade da Igreja em sua missão; mestre e defensor da fé; pastor dos pastores e do laicato; capacitador da pregação da Palavra e da ministração dos sacramentos; líder na missão [...] voz da consciência da sociedade [...] profeta que proclama a justiça de Deus [...] cabeça da família [...]”. Há preocupações com a escandalosa divisão da cristandade, com grupos congregacionalistas responsáveis por noventa por cento dessa proliferação. Não teria sido a criação dos modelos congregacional e presbiteriano, no século 16, uma equivocada concessão ao espírito do século? Quando setores do luteranismo procuram adotar um episcopado histórico, ou os batistas da Geórgia sagram os seus bispos com sucessão apostólica, não são sinais de uma busca crescente de recuperação desse ministério, resistido, ainda, por uma era de rebeldia? Muitos ainda carecem estudá-lo sem preconceitos. Nós, bispos protestantes, não somos pitorescos imitadores de Roma, mas modestos herdeiros do ministério apostólico.

Robinson Cavalcanti
Fonte: Ultimato

14.9.11

Minha Análise sobre Serviços Voluntários

Os serviços voluntários se diferem de qualquer outro serviço por serem desempenhados por alguém que não ganha nenhum retorno efetivo para aquilo que presta. Por exemplo: ao voluntariamente limpar uma praça, tocar numa banda da igreja ou dar aulas de reforço, a pessoa está perdendo seu tempo de oportunidade que poderia estar aplicando em outra coisa 'rentável'. Assim, quem o faz, deve fazer por sua conta e risco, além de fazer somente até o ponto que está disposto.

Frequentar uma igreja não é prestar serviço voluntário - se assemelha mais a participar de um clube - mas, prestar qualquer serviço não remunerado na igreja é, sim, fazer trabalho voluntário. Os que o fazem têm a motivação de agradar a Deus, mas devem fazer com alegria e dedicação unicamente desempenhada pela voluntariedade.

O maior desafio para quem lidera esse tipo de serviço é o de estar disposto a aceitar que nem todas as espectativas podem ser preenchidas pelos membros de um grupo voluntário. Isto por várias razões.

Alguns podem até querer participar de um grupo voluntário mas o fazem parcialmente por terem determinados horários tomados por outro compromisso (como trabalho, estudos, etc). Outros, se sentirem desconfortáveis em determinadas situações, optam por não participar de determinado evento ou ação.

Normalmente as lideranças tem duas formas de encarar esse tipo de problema. Uma delas é pressupor que os membros de um grupo estão sempre disponíveis e, assim, exigir que eles dêem o máximo de si pelo grupo. Dessa forma, todo compromisso marcado pela liderança é dado por certo pelo grupo, independente da opinião do mesmo. Caso um ou outro discorde, dependendo da situação, terá que se expor a tamanha pressão de contrariar o lider. Esse lider é conhecido nos livros de administração como "Autoritário (ou Autocrático) Benevolente", ou seja, diz "faça-se minha vontade", mas com um vocabulário sempre 'amigável' para não criar inimizades.

Normalmente os membros do grupo que discordam desse lider não se opõem, acabando por ou 1)fazer o que ele determina; ou 2)abandonar o grupo; ou 3)permanecer no grupo, faltando ao compromisso sem aviso (o que posteriormente o deixará numa situação de 'represálias').

A outra forma de encarar o problema do não comprometimento total do grupo voluntário é fazer apenas o que a maior parte do grupo concorda. Em administração, esse lider é conhecido como Democrático. Ele consegue conciliar as vontades do Grupo como um tudo e dos indivíduos. Normalmente nesse caso, os membros se interessam em se dedicar por alguma coisa que não os agrada por saberem que a maior parte do grupo está em sintonia com essa coisa. Além disso, é compensatório participar de um grupo onde eu faço o que não gosto apesar de saber que mais adiante vou fazer o que gosto.

Trazendo tudo da teoria para prática: Gosto de cantar no coral X (esse é o nome do coral). Gosto de cantar, e no coral X eu canto ao lado do Duílio. Quando o coral foi formado, sabíamos que cantariamos em determinados eventos que eu não gostaria de participar. Na relação custo-benefício, porém, ensaiar músicas boas cantando ao lado do Duílio me agrada muito e eu participo. Há alguns dias o coral foi convidado pra cantar em Cidreira. O nosso regente, antes de confirmar, perguntou num ensaio se o grupo se interessava. Como o grupo disse que sim, fomos e cantamos. Ele é alguém que eu consideraria Democrático.

Em contrapartida, toco na Banda. A banda é legal, e toca em vários lugares. Na maioria dos eventos, quando a Banda toca, o nosso regente define arbitrariamente se a banda vai ou não com base nos que podem e não podem ir. O detalhe importante nessa questão é o 'poder' e não o 'querer'. Ele pressupõe que, se todos estão no grupo, estão dispostos a ir. Como eu estudo durante a semana, supostamente posso sempre estar em todos os compromissos marcados aos fins de semana. Porém, estudar não é simplesmente ir a aula, e os fins de semana são bons horários de estudo. Assim, eu POSSO ir nos eventos da Banda marcados nos fins de semana mas eventualmente não QUERO porque isso pode prejudicar meus estudos.

Eu normalmente aviso que não vou, mas sou extremamente pressionado a ir [ano passado cedia facilmente a essa pressão, o que contribuiu para o meu baixo desempenho na faculdade]. Isso porque eu tenho outras prioridades e estou disposto a dar somente o meu tempo livre não ocupado com coisas superiores a Igreja (tais como estudos, normalmente). Esse é meu 'nivel de voluntariado', o quanto estou disposto a dar.

Outros de nós são mais dispostos a dar praticamente o sangue pelo grupo. Vamos dizer que o Jair (um cidadão hipotético) é desse tipo. Ele é o agente perfeito aos termos de um lider Autocrático. Ou seja, o nível de voluntariado tende a 100%.

Partamos agora para um evento acontecido nos ultimos dias. Houve um concurso, o qual eu e o Jair prestamos. Como meu nivel de comprometimento não é de 100%, eu me afastei do voluntariado para fazer valer meus estudos e passar no tal concurso. Porém o Jair permaneceu trabalhando no grupo e, apesar de ter estudado, não teve tanto tempo disponível. Meu desempenho, assim, foi bastante superior ao dele.

Esse exemplo prático demonstra como o voluntariado em nível desproporcional pode ser um desastre e levar a pessoa a uma situação ruim. Provavelmente nosso regente da banda estará mais contente o Jair do que comigo, mas eu estou mais contente comigo mesmo do que o Jair com ele mesmo [nesse aspecto, estou dizendo, não tornem gerais as coisas específicas].

Conclusão: Por mais tentador que possa ser para um lider coordenar um grupo voluntário de forma Autocrática, é muito prejudicial para o grupo enchergar o grupo como um conjunto e esquecer que as pessoas tem características únicas e próprias. Alguns trabalham, outros estudam e outros simplesmente não querem se comprometer ao máximo. É importantíssimo que um lider consiga exigir dos membros na medida de cada membro, e do grupo na medida do grupo, sem tornar o feedback dos membros algo desconfortável de se fazer.

[tentei não colocar nomes, na medida do possível. No original os textos citavam os nomes reais, mas pra não criar interpretações apressadas sobre o texto a tipico estilo "Jean é rebelde e vive reclamando" retirei eles. A idéia desse texto é expor uma coisa que andava na minha cabeça desde que sai da banda e que veio a tona ontem de novo... não criticar pessoas, atitudes ou me revoltar publicamente contra alguém. Essa é uma forma de expor um pensamento crítico, não revoltado e me expresso muito melhor escrevendo do que falando... então...]

Paztejamos

9.9.11

Coelhão

Eu ando cismado com o Coelhão.

Coelhão, pra quem não sabe, é o espaço (com parque, pavilhão e ginásio) Rui Coelho Gonçalves. É um espaço aqui em Guaíba que já teve até zoológico e que agora faz uns 10 anos que a prefeitura largou às traças e só da uma 'retocada' quando tem algum evento de grande porte - até porque, aliás, é o único lugar que a cidade tem pra fazer eventos de grande porte.

O Coelhão mais ou menos bem preservado na parte da frente, onde tem a quadra e o pavilhão, mas no parque e no antigo espaço do zoológico, lá atrás, o Coelhão tá trash. Há algum tempo quando eu estive lá parecia que eu tava no filme do Jurassic Park. Hoje, se formos lá, até tá melhorzinho porque domingo começa uma evento importante da cidade (e como eu disse, a prefeitura deu uma retocada)... mas logo que passar o evento o parque vai voltar a ser abandonado, permitindo que todo tipo de 'infestação' se aloje por lá [me refiro a drogas, mendigos, e etc].

Por isso eu tenho pregado, plantado uma 'semente' sugerindo que o Coelhão seja adotado. Não sei por quem, pode ser pela igreja, por uma escola, ou por um grupo de amigos... não importa. Mas tem que ser adotado. Eu quero fazer parte disso. Já analisei o lugar e, por onde andei, já pensei em possíveis melhorias para o lugar. Mas sozinho eu ainda (note, ainda) sou impotente pra poder fazer alguma coisa significativa. Assim, continuo pregando, falando, e logo acredito que possa sair alguma coisa que 'revitalize' o lugar.

Vamos ver o que sai. Espero que dê tudo certo =D

Paztejamos

O Sacro Rompimento - Paulo Brabo

Outro dia eu conversava no messenger com um amigo italiano e ele mencionou que na cidade de Ravenna há importantes igrejas cristãs construídas pouco mais de 400 anos depois de Cristo – ou seja, um piscar de olhos (em termos históricos) depois da passagem de Jesus pela terra.

Ele lembrou em seguida que o Santo Sudário estava mais uma vez sendo exposto ao público na Catedral de São João Batista em Turim, como acontece periodicamente. E aproveitou para contar a teoria de uma historiadora dos Arquivos Secretos do Vaticano, Barbara Frale, que postula que o grande segredo dos templários era que sua ordem venerava a figura de Cristo no Sudário – sendo que seus integrantes juravam contornar as tentações do poder mantendo-se fiéis à humanidade de Jesus estampada muito literalmente no lençol de Turim.

Eu acompanhava interessadíssimo a história e ponderava a beleza de suas implicações, quando meu amigo [católico] interrompeu sua exposição para perguntar:

– E vocês, protestantes, o que pensam do Sudário?

Respondi sem pensar, mas fiquei imediatamente estarrecido diante do rigor da resposta:

– Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa – eu disse.

E completei, apenas em parte ironicamente:

– Nem mesmo Jesus, coitadinho.

E se conto a história dessa conversa é porque não consigo deixar de pensar no que disse. Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa.

Foi necessária essa precisa articulação da ideia para eu entender que o rompimento sonhado e efetuado pelos protestantes não foi apenas com a Igreja Católica, mas com a própria História. Nosso método para corrigir mil e quinhentos anos de cristandade foi ignorá-los. Consequentemente, nossa relação com a História é ainda hoje precisamente oposta à do catolicismo, que vive (e na verdade depende de) uma contínua ligação ela.

No que diz respeito a nós, precisamente nada aconteceu no cristianismo (e portanto no mundo) entre a conclusão do Novo Testamento e as indignações de Lutero e as paixões dos anabatistas. Se dependesse de nós, esses 1500 anos intermediários seriam apagados das atas ou, no máximo, mantidos como embaraçosa nota de rodapé – monumento ou advertência contra o obscurantismo que a luz da Reforma tratou de expor e reparar.

Em termos muito reais, é esse rigoroso rompimento, essa cirúrgica remoção, que aplicamos à narrativa do movimento cristão. Nosso verdadeira filiação, queremos crer, é com a igreja vitoriosa e impoluta do livro de Atos, não com a estrutura corrupta e vendida que dominou a cristandade antes que aparecêssemos para denunciá-la. Decidimos que esse período intermediário, que ao mesmo tempo desconhecemos e abominamos, deve ser desconsiderado – porque a herança de Cristo só passou a ser eficazmente defendida quando entramos em cena para honrá-la como convém.

Em conformidade com isso, fazemos questão de não confessar – e fazemos isso ignorando-os – qualquer continuidade com as vidas dos mártires e dos santos, com os assombros do medievo, com as Cruzadas e peregrinações, com a subversão descalça de São Francisco, com os fogos da Inquisição e as lancetas da penitência, com a paixão medieval pelos pobres e a obsessão medieval pelos símbolos; nada sabemos e nada queremos saber sobre a adoração de relíquias, a função dos gárgulas, os diferentes ritos latinos, as estações da cruz, os cinco mistérios gloriosos, os círculos do rosário ou o segredo da construção de catedrais. Nada temos em comum e nada queremos ter com Teodorico e Teodora, com Catarina de Siena, com São João da Cruz, com Elredo de Rievaulx, com Tomás de Aquino, com Santa Luzia, com Carlos Magno, com Teresa de Ávila. Nosso Deus é o de Abraão, Isaque e Jacó, mas – pelo amor de Deus – não é o Deus de Joana d’Arc, de Giotto, de Gregorio I e de Dante Alighieri. Rejeitamos todas as imagens, todo acender de velas, todo pagamento de promessa, todos os intermediários não autorizados, todo penduricalho, todo Sagrado Coração, toda veneração transgressora.

Igrejas com mais de 500 anos são para nós uma contradição em termos. Não temos qualquer relação com essa história. Ela não nos pertence. Temos raiva de quem sabe. A veneração do Sudário, para falar de outro marco que desconhecemos, é demonstração de rebeldia, ignorância e credulidade. Nada tem a ver, por certo, com a verdadeira fé.

Nosso rompimento com o passado está tão entranhado na nossa postura que, à parte [alguns] dentro das chamadas denominações históricas, vivemos completamente à parte de qualquer relação de continuidade até mesmo com a tradição protestante ou evangélica. Nem mesmo esses 500 anos de protestantismo nos interessam. Não sabemos o que disseram ou fizeram Lutero, Calvino, Knox, Wesley ou mesmo Billy Graham; nada conhecemos sobre os primórdios dos metodistas ou da relação dos batistas norte-americanos com a Guerra da Secessão. O passado evangélico é um lugar que não existe. Tudo que queremos ouvir é o presente pregador oferecendo neste instante a prosperidade para o momento presente.

A primeira e mais grave consequência desse rompimento com o passado é o esvaziamento simbólico dos nossos espaços interiores e exteriores. Quando descartamos as linguagens cristãs da antiguidade e da era medieval (como se fossem mais ambíguas e questionáveis do que a nossa), exterminamos do coração da fé todo mito, toda metáfora e todo assombro. Só nos resta a superfície, a aparência da aparência de uma existência espiritual.

O utilitarismo que nos caracteriza é explicado por essa alienação com a alma das coisas, porque em nosso isolamento passamos a ver as coisas como ferramentas, os lugares como facilidades e as pessoas como números.

Essa devastação de nosso ambiente simbólico fica patente na arquitetura de praticamente qualquer templo [uso o termo com moderado sarcasmo] evangélico contemporâneo. Uma casa fala do que está cheio o coração, e nada há nas paredes de um templo evangélico que dê indício de riqueza interior ou de qualquer compromisso com a história. Tratam-se de edifícios assépticos, indistintos, utilitaristas – e essas suas qualidades falam por nós e de nós. Retirem-se apenas os bancos, e o que resta tem o apelo de um salão de churrascaria, o caráter de um piso de indústria ou almoxarifado; a sala de espera de uma repartição pública terá inevitavelmente mais alma, mais ornamento e mais conteúdo simbólico. Via de regra não há no edifício evangélico sequer uma cruz ou crucifixo, porque nosso distanciamento simbólico se estende até mesmo a Jesus. Nada queremos com o Jesus histórico que percorreu a Palestina ou os evangelhos, nem com o Filho de Deus que tocou a cruz, de onde poderia nos intimidar; só queremos saber do Cristo invisível, que não tem como nos constranger com seu olhar, e que habita o céu, de onde pode incessantemente nos favorecer. Desconhecemos a noção de que lugares possam se tornar imbuídos de significado (e portanto de valor), pelo que vendemos sem pestanejar a propriedade em que nos reuníamos para construir templo maior ou mais conveniente em outro lugar.

Nenhuma outra nação encarna essa dissociação com a história de modo mais formidável do que os Estados Unidos, país evangélico por excelência, e que em conformidade com essa vocação opera de modo a ignorar deliberadamente qualquer outra história (e portanto qualquer outro valor) que não seja a sua. Os aspectos bélicos e mercantilistas da missão civilizadora/evangelizadora dos Estados Unidos explicam-se por esse rompimento radical com a história de outros povos e culturas. Os norte-americanos se compadecem grandemente de países que não são os Estados Unidos – lugares pagãos como a Namíbia, a Itália, a União Soviética e o Sri-Lanka – e tomaram sobre os ombros a tarefa de salvar o mundo, estendendo a todos a sombra redentora da sua bandeira. Intuem que os povos só serão de fatos redimidos quando forem liberados por seus exércitos, ou quando encontrarem a luz do valor supremo do poder de compra. Nisso são impulsionados pela dó que têm dos povos que não compartilham de suas datas cívicas; representam o primeiro império da história impelido pela sinceridade da sua compaixão.

Outra consequência da dissociação evangelical com as raízes da história é que nos tornamos um povo que não tem a quem prestar contas. Não só os erros da Igreja Católica não nos dizem respeito; também não queremos ser julgado pelas imprudências de Lutero, pelas imoderações de Calvino, pelos exageros dos missionários entre os índios, pelas omissões dos cristãos na Alemanha nazista, pela desfiguração de culturas confrontadas com o capitalismo cristão, pelo usurpação de recursos ambientais que pertenciam muito claramente a todos. Na verdade nossa dissociação com o passado é tamanha que não queremos ser responsáveis pelo que nós mesmos fizemos em nosso próprio tempo de vida. Erigimos dessa forma, e com a assombrosa conivência de Deus, um reino de impunidade.

Em retrospecto, não é de estranhar que o capitalismo industrial e o protestantismo sejam gêmeos nascidos no mesmo berço. Como gentilmente diagnosticado por Marx, a consequência mais incontornável do capitalismo é a alienação – alienação que, para o bem ou para o mal, acabou determinando todos os aspectos do desenvolvimento cultural, social e econômico que veio depois. Não é exagero supor que a alienação capitalista só tenha se tornado possível a partir da alienação anterior, o sacro rompimento do movimento protestante com a história prévia do movimento que se levantaram para reparar.

***

Justamente por desconhecermos a história, raramente paramos para avaliar o que perdemos nessa transação de adquirir o futuro vendendo nossa parte da herança com o passado. Gostaria de mencionar uma única baixa que tomo por especialmente representativa do prejuízo como um todo: a perda da capacidade de ajoelhar-se diante das coisas.

Ao contrário do que católicos costumam fazer, os evangélicos absolutamente não se ajoelham diante de coisas (digamos, cruzes, imagens ou lugares sagrados). Aprendemos e confessamos que o verdadeiro crente deve dobrar-se apenas diante do Deus invisível ou do Cristo (invisível), seu sócio e representante autorizado.

O paradoxo está em que quando se ajoelham diante de imagens ou de relíquias ou capelas os católicos estão fazendo confissão oposta à que atribuímos a eles. Enquanto se dobram diante do que é meramente material, estão reconhecendo tacitamente que os objetos por si mesmos não se bastam e não se explicam; estão confessando que as coisas não se esgotam em sua utilidade imediata e não se constituem na definição última da realidade. Devidamente instruídos pela mentalidade medieval, eles intuem que o valor das coisas não está em sua função utilitária, mas em sua função simbólica. As coisas apontam para outra realidade; as coisas remetem.

Ajoelhar-se diante das coisas, incrivelmente, é colocar as coisas no seu devido lugar – porque ao fazê-lo reconhecemos simultaneamente a sua insuficiência, sua condição de emblema de uma realidade impalpável, transcendente e superior. Nós, que nunca beijamos os pés de uma Maria ou deixamos os joelhos tocar o mármore frio diante de um Crucificado, desconhecemos por completo esse assombro. Somos paupérrimos de conteúdo simbólico e virgens de transcendência; porque nos recusamos a tocar o material, somos privados da realidade intangível a que as coisas silenciosamente remetem.

E precisamente nós de herança protestante, que não nos ajoelhamos diante de coisas, somos os que alçaram sacrilegamente as coisas a um patamar de valor que muito claramente as coisas não têm. Somos os inventores e os contínuos promotores do capitalismo industrial que gerou os holocaustos do neoliberalismo contemporâneo; aperfeiçoamos a ciência do lucro, engendramos o culto da performance e evangelizamos o mundo com a terrível nova de que ser livre é ter a capacidade de adquirir. Vivemos em torres de ganância, oramos por prosperidade material, decretamos o insucesso financeiro dos nossos inimigos, dedicamos a vida a angariar os bens de que não iremos precisar – e chamamos o que eles fazem de idolatria.

Fonte: A Bacia das Almas