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26.5.11

O homem e o quadro

Era inverno. As nuvens, de um tom cinzento-escuro, com nuançes alvos, cobria o ceú como um grande manto extendido. Ventos irregulares sopravam na cidade. Naquela cidade grande e suja.

Ante os ventos, a multidão de pessoas a caminhar pelo calçamento, estava um homem parado, alheio de tudo e de todos.

Apesar do inverno, dos ventos, da falta de sol, a cidade não podia parar. Era isso o que diziam os coros de buzinas dos carros, dos caminhões. Mas o homem a tudo ignorava.

Sua atenção estava presa a uma vitrine. Por trás daquele vitral, entre tantas bujigangas e itens de decoração, estava um retrato que lhe cativara.

O rosto do homem continha algo como que um cansaço, de que passara por considerável número de coisas. Suas roupas eram um pouco velhas e surradas. Um cachecol sem adorno algum o envolvia no pescoço.

O quadro em questão era uma bela pintura, quase de aspecto fotográfico. Retratava uma bela garota, com uma flor presa ao cabelo. Ela parecia emergir da água de um rio.
Os olhos eram grandes e luminosos. Os cabelos, longos, espalhados pelos ombros. Um aspecto de serenidade, e até de espanto, permeava o seu rosto.

O homem, parado em meio a marcha da multidão, após um longo período, soltou um gemido. Estava lamentando algo.

Será que aquele quadro trazia consigo a lembrança, para o homem, de um tempo perdido? Mas, ao mesmo tempo em que suspirava, havia um brilho de esperança em seus olhos. O quadro parecia ser sua única inspiração.

Um jovem, que passava pelo local, ficara curioso acerca do homem, e o observou por algum tempo. Finalmente, resolveu abordá-lo, não aguentando a curiosidade.

- Senhor, o que faz aqui? - pergunta o rapaz.

O homem, como se houvesse sido despertado, vira-se bruscamente para o rapaz.

- Eu estou admirando aquele quadro.

O garoto não entendeu. Parecia para ele aquele quadro um amontoado de tintas antiquadas, para formar um desenho bobo de uma garota.

- Senhor, não vê o movimento da cidade? Não vê os outdoors? Não ouve os sons, os ruídos? Não pode ficar parado aqui! O que há demais nesse quadro velho, para que lhe chame tanto a atenção?

- Acontece, guri - riu-se baixinho o homem - que não me interessa todo esse mundo de barulho e agitação. A única beleza que vejo, aqui, é esse quadro.

Tomou um pouco mais de fôlego, e disse, num suspiro.

- A única beleza que conheci foi esse quadro. Não vejo nada mais que lhe seja superior ou mesmo paralelo. Caminhei por muito tempo, a procura de algo mais, e não encontrei. Agora, guri, deixe-me, deixe-me desfrutar da única beleza que encontrei, que conheci, ainda que seja só uma imagem. Não há algo maior, não há algo melhor.

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