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21.9.11

Tu Já Viste Um Pelicano?

Eu sou um cara bastante cético. Sempre fico na defensiva em tudo que me dizem, por mais convincente que pareça. Na Igreja, na Universidade ou na TV, sempre tento desconfiar.

Meu problema com os ditos céticos do nosso tempo se dá pela seletividade do ceticismo deles. Concordo que questionem o cristianismo, o espiritismo, o judaismo ou qualquer coisa mais... mas por que não questionam a ciência?

Outro dia o Duilio me contou que um conhecido dele deixou de "crer" porque ficou sabendo que cientistas descobriram que existe uma água viva que não morre. Daí ele criou argumentos lógicos que fizeram com que ele deixasse de ser crente. A minha pergunta é: por que ele não desconfiou da tal água viva? por que ele acredita tão cegamente que exista a tal água viva mesmo sem ter ido confirmar? Ou alguém por acaso acompanhou a vida da tal água viva ad eternum pra constatar que ela não morre nunca.

Daí a pergunta-título desse post. Essa é a pergunta que eu faço pras pessoas quando falo de Deus. Davi compara Deus com os montes; João com um Rei; Rob Bell com a música... eu com um pelicano... mas um pingüim (com trema!) também serve.

Tu, querido leitor anônimo que se presta a ler esse blog, já viu pessoalmente um pelicano? tirando excessões estranhas, creio que não. E então, por que crê tão piamente que existam tais seres? Talvez porque tenha o visto nos livros de biologia, ou porque tenha assistido um documentário sobre peixes e aves no Discovery Channel, ou talvez porque quando busque por "Pelicano" no google, haja milhares de resultados. Portanto, se existisse uma grande conspiração mundial pra te convencer que existam pelicanos, quando na verdade eles não existem, tu seria provavelmente enganado.

Note, querido leitor, que os mesmos argumentos para te convencer da existência do pelicano se aplicam a Deus: o número de resultados no google, os documentários (não no discovery, admito, mas em outros canais) e os livros (não o de biologia, mas a Bíblia, como grande exemplo, dentre infinitos outros inteligentíssimos) estão disponíveis.

Todos nós cremos no que quisermos. Eu creio, por exemplo, que os EUA derrubaram as Torres Gêmeas (e não Bin Laden); eu creio que em 1969 o homem não foi na lua (apesar de ter ido mais tarde); e eu creio que é impossível que haja vida em outros planetas. São crendisses minhas e todos podem ter as suas próprias.

Se eu cismar que, derrepente, não existem pelicanos, eu posso. Nada pode me impedir. Enquanto eu não ser convencido pelos meus próprios meios de que existem de fato pelicanos, vou permanecer convicto na minha fé.

[por mais que o exemplo com pelicanos seja esquisito, experimente o teste com outros animais como o dragão de komodo. Vai parecer mais elucidativo pensar nele como um ser que pessoas normalmente não crêem que exista]

Da mesma forma Deus. Por mais que muita gente cisme que Ele não existe, o universo e tudo a minha volta é bastante razoável pra conceber a existência de Deus. Toda vez que os darwinistas salvam a teoria dos fatos, abrindo 'exceções' e ficando 'supresos' com determinadas coisas que no limite demonstram a fraqueza da teoria, minha certeza da existência de Deus aumenta. Quando eu me corto e minha ferida se fecha sozinha, sem eu fazer um esforço pra que aquilo aconteça, minha convicção cresce. Quando as faces Divinas do design inteligente (inegáveis inclusive por ateus) se demonstram - como as rugas nos dedos quando estamos dentro da água ou como o reverstimento do feto para não ser expelido pela mãe - fico mais crente ainda.

Assim, acabo concluindo que o ateismo acaba por ser uma religião. Uma religião não baseada na ciência, mas na convicção dos homens. Ateus não podem se apoderar da palavra 'ceticismo' como se fossem céticos puros. Se o fossem, chegariam a conclusão de que 'não se sabe se há Deus' (ou não chegariam a conclusão nenhuma sobre Deus), o que não parece ser o que diz a própria etimilogia da palavra 'ateu'. Enfim... eu me considero bastante cético, mas me rendo a realidade e constato que, por trás de tudo que há, só pode haver Alguém.

Paztejamos

19.9.11

Os bispos protestantes

Nossa época é marcada por um desconhecimento da história da Igreja no mundo e no Brasil. Alguns conhecem a história do seu próprio ramo do cristianismo, e quase nada dos demais, sejam membros da igreja de Roma ou das igrejas Reformadas (e essa entre si), assim como em relação às igrejas do Oriente: bizantinos, pré-calcedônios, nestorianos e uniatas. Um presentismo secular desconfia de tudo o que significa passado. Com o anabatismo da “reforma radical”, inaugurou-se a visão de uma “apostasia geral da Igreja”, com o Espírito Santo pretensamente se ausentando da história entre Constantino e Lutero. Essa mesma vertente restauracionista foi responsável por uma eclesiologia localista (igreja = comunidade local), bem como pelo dualismo neoplatônico entre “igreja visível” e “igreja invisível”. Para o teólogo Samuel Escobar (FTL), o protestantismo latino-americano foi “anabatistizado”. Com a presença pioneira de congregacionais, batistas e presbiterianos (com suas formas de administração), o episcopado foi associado intrinsecamente com o romanismo, e, como tal, rejeitado. A presença, nas últimas décadas, de “bispos” e “apóstolos” em denominações neo(pseudo)pentecostais tem sido vista ora como imitação do romanismo, como afirmação de poder pessoal, ora como algo pitoresco. Pouca gente se deu conta de que bispos anglicanos (episcopado histórico) e metodistas (episcopado administrativo) têm atuado nesse continente por mais de um século, e que muitas denominações pentecostais clássicas adotam um episcopado administrativo não-nominado (superintendentes, pastores-presidentes). A história atesta que o episcopado foi estabelecido em todos os ramos e regiões da cristandade menos de dois séculos depois da ressurreição do Senhor, se manteve como a única forma por mil e quinhentos anos, é adotado hoje, em suas diversas variações, por noventa por cento da cristandade, e foi tido como compatível com a Reforma Protestante (luteranos e anglicanos), que sua adoção por novas denominações sinaliza a busca do preenchimento de um ministério (“episkopé”) perdido ou distorcido, e que sua aceitação, à luz da experiência histórica e corrigidas as distorções, se constituiria em um passo importante para a saúde espiritual da Igreja. Se a fórmula “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” contou para os Pais Apostólicos e os Pais da Igreja no fechamento do cânon bíblico, na redação dos credos com suas doutrinas centrais, e na formalização dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor, por que o Espírito Santo seria excluído (“pareceu bem apenas para nós”) na definição do episcopado? Seriam as outras decisões “espirituais”, e essa apenas “humana” (dualismo)? Haveria fundamento para a ótica da burguesia do século 16 em reler “presbiterianamente” a Igreja Primitiva, e de setores mais populares fazerem “congregacionalisticamente” o mesmo (com pretensões democratizantes), segundo o contexto secular da época? Sendo uma instituição um ser que requer tempo para a sua formação, não estaria o congregacionalismo absolutizando o “óvulo” e o presbiterianismo o “embrião”, quando o episcopalismo representou o ser já nascido? No início do segundo século, Inácio de Antioquia fazia referência ao tríplice ministério: bispos, presbíteros e diáconos, entendendo os bispos como sucessores do ministério apostólico. O mesmo fez Policarpo de Esmirna, afirmando o ter aprendido com os apóstolos. Com a prática universalmente estabelecida, o episcopado foi alvo de sistematização teórica por Cipriano de Cartago, no terceiro século, com os bispos escolhidos pelo clero e pelo povo e governando de forma participativa. Escreveu um historiador: “Depois da morte dos apóstolos, a responsabilidade apostólica passou a personalidades como Tito e Timóteo, o que representa uma nítida cristalização da função episcopal. No começo do século 2, a estrutura desta função desenvolveu-se plenamente em seu conjunto [...]”. A Conferência de Lambeth, de 1988, define o bispo como sendo: “[...] símbolo da unidade da Igreja em sua missão; mestre e defensor da fé; pastor dos pastores e do laicato; capacitador da pregação da Palavra e da ministração dos sacramentos; líder na missão [...] voz da consciência da sociedade [...] profeta que proclama a justiça de Deus [...] cabeça da família [...]”. Há preocupações com a escandalosa divisão da cristandade, com grupos congregacionalistas responsáveis por noventa por cento dessa proliferação. Não teria sido a criação dos modelos congregacional e presbiteriano, no século 16, uma equivocada concessão ao espírito do século? Quando setores do luteranismo procuram adotar um episcopado histórico, ou os batistas da Geórgia sagram os seus bispos com sucessão apostólica, não são sinais de uma busca crescente de recuperação desse ministério, resistido, ainda, por uma era de rebeldia? Muitos ainda carecem estudá-lo sem preconceitos. Nós, bispos protestantes, não somos pitorescos imitadores de Roma, mas modestos herdeiros do ministério apostólico.

Robinson Cavalcanti
Fonte: Ultimato

14.9.11

Minha Análise sobre Serviços Voluntários

Os serviços voluntários se diferem de qualquer outro serviço por serem desempenhados por alguém que não ganha nenhum retorno efetivo para aquilo que presta. Por exemplo: ao voluntariamente limpar uma praça, tocar numa banda da igreja ou dar aulas de reforço, a pessoa está perdendo seu tempo de oportunidade que poderia estar aplicando em outra coisa 'rentável'. Assim, quem o faz, deve fazer por sua conta e risco, além de fazer somente até o ponto que está disposto.

Frequentar uma igreja não é prestar serviço voluntário - se assemelha mais a participar de um clube - mas, prestar qualquer serviço não remunerado na igreja é, sim, fazer trabalho voluntário. Os que o fazem têm a motivação de agradar a Deus, mas devem fazer com alegria e dedicação unicamente desempenhada pela voluntariedade.

O maior desafio para quem lidera esse tipo de serviço é o de estar disposto a aceitar que nem todas as espectativas podem ser preenchidas pelos membros de um grupo voluntário. Isto por várias razões.

Alguns podem até querer participar de um grupo voluntário mas o fazem parcialmente por terem determinados horários tomados por outro compromisso (como trabalho, estudos, etc). Outros, se sentirem desconfortáveis em determinadas situações, optam por não participar de determinado evento ou ação.

Normalmente as lideranças tem duas formas de encarar esse tipo de problema. Uma delas é pressupor que os membros de um grupo estão sempre disponíveis e, assim, exigir que eles dêem o máximo de si pelo grupo. Dessa forma, todo compromisso marcado pela liderança é dado por certo pelo grupo, independente da opinião do mesmo. Caso um ou outro discorde, dependendo da situação, terá que se expor a tamanha pressão de contrariar o lider. Esse lider é conhecido nos livros de administração como "Autoritário (ou Autocrático) Benevolente", ou seja, diz "faça-se minha vontade", mas com um vocabulário sempre 'amigável' para não criar inimizades.

Normalmente os membros do grupo que discordam desse lider não se opõem, acabando por ou 1)fazer o que ele determina; ou 2)abandonar o grupo; ou 3)permanecer no grupo, faltando ao compromisso sem aviso (o que posteriormente o deixará numa situação de 'represálias').

A outra forma de encarar o problema do não comprometimento total do grupo voluntário é fazer apenas o que a maior parte do grupo concorda. Em administração, esse lider é conhecido como Democrático. Ele consegue conciliar as vontades do Grupo como um tudo e dos indivíduos. Normalmente nesse caso, os membros se interessam em se dedicar por alguma coisa que não os agrada por saberem que a maior parte do grupo está em sintonia com essa coisa. Além disso, é compensatório participar de um grupo onde eu faço o que não gosto apesar de saber que mais adiante vou fazer o que gosto.

Trazendo tudo da teoria para prática: Gosto de cantar no coral X (esse é o nome do coral). Gosto de cantar, e no coral X eu canto ao lado do Duílio. Quando o coral foi formado, sabíamos que cantariamos em determinados eventos que eu não gostaria de participar. Na relação custo-benefício, porém, ensaiar músicas boas cantando ao lado do Duílio me agrada muito e eu participo. Há alguns dias o coral foi convidado pra cantar em Cidreira. O nosso regente, antes de confirmar, perguntou num ensaio se o grupo se interessava. Como o grupo disse que sim, fomos e cantamos. Ele é alguém que eu consideraria Democrático.

Em contrapartida, toco na Banda. A banda é legal, e toca em vários lugares. Na maioria dos eventos, quando a Banda toca, o nosso regente define arbitrariamente se a banda vai ou não com base nos que podem e não podem ir. O detalhe importante nessa questão é o 'poder' e não o 'querer'. Ele pressupõe que, se todos estão no grupo, estão dispostos a ir. Como eu estudo durante a semana, supostamente posso sempre estar em todos os compromissos marcados aos fins de semana. Porém, estudar não é simplesmente ir a aula, e os fins de semana são bons horários de estudo. Assim, eu POSSO ir nos eventos da Banda marcados nos fins de semana mas eventualmente não QUERO porque isso pode prejudicar meus estudos.

Eu normalmente aviso que não vou, mas sou extremamente pressionado a ir [ano passado cedia facilmente a essa pressão, o que contribuiu para o meu baixo desempenho na faculdade]. Isso porque eu tenho outras prioridades e estou disposto a dar somente o meu tempo livre não ocupado com coisas superiores a Igreja (tais como estudos, normalmente). Esse é meu 'nivel de voluntariado', o quanto estou disposto a dar.

Outros de nós são mais dispostos a dar praticamente o sangue pelo grupo. Vamos dizer que o Jair (um cidadão hipotético) é desse tipo. Ele é o agente perfeito aos termos de um lider Autocrático. Ou seja, o nível de voluntariado tende a 100%.

Partamos agora para um evento acontecido nos ultimos dias. Houve um concurso, o qual eu e o Jair prestamos. Como meu nivel de comprometimento não é de 100%, eu me afastei do voluntariado para fazer valer meus estudos e passar no tal concurso. Porém o Jair permaneceu trabalhando no grupo e, apesar de ter estudado, não teve tanto tempo disponível. Meu desempenho, assim, foi bastante superior ao dele.

Esse exemplo prático demonstra como o voluntariado em nível desproporcional pode ser um desastre e levar a pessoa a uma situação ruim. Provavelmente nosso regente da banda estará mais contente o Jair do que comigo, mas eu estou mais contente comigo mesmo do que o Jair com ele mesmo [nesse aspecto, estou dizendo, não tornem gerais as coisas específicas].

Conclusão: Por mais tentador que possa ser para um lider coordenar um grupo voluntário de forma Autocrática, é muito prejudicial para o grupo enchergar o grupo como um conjunto e esquecer que as pessoas tem características únicas e próprias. Alguns trabalham, outros estudam e outros simplesmente não querem se comprometer ao máximo. É importantíssimo que um lider consiga exigir dos membros na medida de cada membro, e do grupo na medida do grupo, sem tornar o feedback dos membros algo desconfortável de se fazer.

[tentei não colocar nomes, na medida do possível. No original os textos citavam os nomes reais, mas pra não criar interpretações apressadas sobre o texto a tipico estilo "Jean é rebelde e vive reclamando" retirei eles. A idéia desse texto é expor uma coisa que andava na minha cabeça desde que sai da banda e que veio a tona ontem de novo... não criticar pessoas, atitudes ou me revoltar publicamente contra alguém. Essa é uma forma de expor um pensamento crítico, não revoltado e me expresso muito melhor escrevendo do que falando... então...]

Paztejamos

9.9.11

Coelhão

Eu ando cismado com o Coelhão.

Coelhão, pra quem não sabe, é o espaço (com parque, pavilhão e ginásio) Rui Coelho Gonçalves. É um espaço aqui em Guaíba que já teve até zoológico e que agora faz uns 10 anos que a prefeitura largou às traças e só da uma 'retocada' quando tem algum evento de grande porte - até porque, aliás, é o único lugar que a cidade tem pra fazer eventos de grande porte.

O Coelhão mais ou menos bem preservado na parte da frente, onde tem a quadra e o pavilhão, mas no parque e no antigo espaço do zoológico, lá atrás, o Coelhão tá trash. Há algum tempo quando eu estive lá parecia que eu tava no filme do Jurassic Park. Hoje, se formos lá, até tá melhorzinho porque domingo começa uma evento importante da cidade (e como eu disse, a prefeitura deu uma retocada)... mas logo que passar o evento o parque vai voltar a ser abandonado, permitindo que todo tipo de 'infestação' se aloje por lá [me refiro a drogas, mendigos, e etc].

Por isso eu tenho pregado, plantado uma 'semente' sugerindo que o Coelhão seja adotado. Não sei por quem, pode ser pela igreja, por uma escola, ou por um grupo de amigos... não importa. Mas tem que ser adotado. Eu quero fazer parte disso. Já analisei o lugar e, por onde andei, já pensei em possíveis melhorias para o lugar. Mas sozinho eu ainda (note, ainda) sou impotente pra poder fazer alguma coisa significativa. Assim, continuo pregando, falando, e logo acredito que possa sair alguma coisa que 'revitalize' o lugar.

Vamos ver o que sai. Espero que dê tudo certo =D

Paztejamos

O Sacro Rompimento - Paulo Brabo

Outro dia eu conversava no messenger com um amigo italiano e ele mencionou que na cidade de Ravenna há importantes igrejas cristãs construídas pouco mais de 400 anos depois de Cristo – ou seja, um piscar de olhos (em termos históricos) depois da passagem de Jesus pela terra.

Ele lembrou em seguida que o Santo Sudário estava mais uma vez sendo exposto ao público na Catedral de São João Batista em Turim, como acontece periodicamente. E aproveitou para contar a teoria de uma historiadora dos Arquivos Secretos do Vaticano, Barbara Frale, que postula que o grande segredo dos templários era que sua ordem venerava a figura de Cristo no Sudário – sendo que seus integrantes juravam contornar as tentações do poder mantendo-se fiéis à humanidade de Jesus estampada muito literalmente no lençol de Turim.

Eu acompanhava interessadíssimo a história e ponderava a beleza de suas implicações, quando meu amigo [católico] interrompeu sua exposição para perguntar:

– E vocês, protestantes, o que pensam do Sudário?

Respondi sem pensar, mas fiquei imediatamente estarrecido diante do rigor da resposta:

– Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa – eu disse.

E completei, apenas em parte ironicamente:

– Nem mesmo Jesus, coitadinho.

E se conto a história dessa conversa é porque não consigo deixar de pensar no que disse. Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa.

Foi necessária essa precisa articulação da ideia para eu entender que o rompimento sonhado e efetuado pelos protestantes não foi apenas com a Igreja Católica, mas com a própria História. Nosso método para corrigir mil e quinhentos anos de cristandade foi ignorá-los. Consequentemente, nossa relação com a História é ainda hoje precisamente oposta à do catolicismo, que vive (e na verdade depende de) uma contínua ligação ela.

No que diz respeito a nós, precisamente nada aconteceu no cristianismo (e portanto no mundo) entre a conclusão do Novo Testamento e as indignações de Lutero e as paixões dos anabatistas. Se dependesse de nós, esses 1500 anos intermediários seriam apagados das atas ou, no máximo, mantidos como embaraçosa nota de rodapé – monumento ou advertência contra o obscurantismo que a luz da Reforma tratou de expor e reparar.

Em termos muito reais, é esse rigoroso rompimento, essa cirúrgica remoção, que aplicamos à narrativa do movimento cristão. Nosso verdadeira filiação, queremos crer, é com a igreja vitoriosa e impoluta do livro de Atos, não com a estrutura corrupta e vendida que dominou a cristandade antes que aparecêssemos para denunciá-la. Decidimos que esse período intermediário, que ao mesmo tempo desconhecemos e abominamos, deve ser desconsiderado – porque a herança de Cristo só passou a ser eficazmente defendida quando entramos em cena para honrá-la como convém.

Em conformidade com isso, fazemos questão de não confessar – e fazemos isso ignorando-os – qualquer continuidade com as vidas dos mártires e dos santos, com os assombros do medievo, com as Cruzadas e peregrinações, com a subversão descalça de São Francisco, com os fogos da Inquisição e as lancetas da penitência, com a paixão medieval pelos pobres e a obsessão medieval pelos símbolos; nada sabemos e nada queremos saber sobre a adoração de relíquias, a função dos gárgulas, os diferentes ritos latinos, as estações da cruz, os cinco mistérios gloriosos, os círculos do rosário ou o segredo da construção de catedrais. Nada temos em comum e nada queremos ter com Teodorico e Teodora, com Catarina de Siena, com São João da Cruz, com Elredo de Rievaulx, com Tomás de Aquino, com Santa Luzia, com Carlos Magno, com Teresa de Ávila. Nosso Deus é o de Abraão, Isaque e Jacó, mas – pelo amor de Deus – não é o Deus de Joana d’Arc, de Giotto, de Gregorio I e de Dante Alighieri. Rejeitamos todas as imagens, todo acender de velas, todo pagamento de promessa, todos os intermediários não autorizados, todo penduricalho, todo Sagrado Coração, toda veneração transgressora.

Igrejas com mais de 500 anos são para nós uma contradição em termos. Não temos qualquer relação com essa história. Ela não nos pertence. Temos raiva de quem sabe. A veneração do Sudário, para falar de outro marco que desconhecemos, é demonstração de rebeldia, ignorância e credulidade. Nada tem a ver, por certo, com a verdadeira fé.

Nosso rompimento com o passado está tão entranhado na nossa postura que, à parte [alguns] dentro das chamadas denominações históricas, vivemos completamente à parte de qualquer relação de continuidade até mesmo com a tradição protestante ou evangélica. Nem mesmo esses 500 anos de protestantismo nos interessam. Não sabemos o que disseram ou fizeram Lutero, Calvino, Knox, Wesley ou mesmo Billy Graham; nada conhecemos sobre os primórdios dos metodistas ou da relação dos batistas norte-americanos com a Guerra da Secessão. O passado evangélico é um lugar que não existe. Tudo que queremos ouvir é o presente pregador oferecendo neste instante a prosperidade para o momento presente.

A primeira e mais grave consequência desse rompimento com o passado é o esvaziamento simbólico dos nossos espaços interiores e exteriores. Quando descartamos as linguagens cristãs da antiguidade e da era medieval (como se fossem mais ambíguas e questionáveis do que a nossa), exterminamos do coração da fé todo mito, toda metáfora e todo assombro. Só nos resta a superfície, a aparência da aparência de uma existência espiritual.

O utilitarismo que nos caracteriza é explicado por essa alienação com a alma das coisas, porque em nosso isolamento passamos a ver as coisas como ferramentas, os lugares como facilidades e as pessoas como números.

Essa devastação de nosso ambiente simbólico fica patente na arquitetura de praticamente qualquer templo [uso o termo com moderado sarcasmo] evangélico contemporâneo. Uma casa fala do que está cheio o coração, e nada há nas paredes de um templo evangélico que dê indício de riqueza interior ou de qualquer compromisso com a história. Tratam-se de edifícios assépticos, indistintos, utilitaristas – e essas suas qualidades falam por nós e de nós. Retirem-se apenas os bancos, e o que resta tem o apelo de um salão de churrascaria, o caráter de um piso de indústria ou almoxarifado; a sala de espera de uma repartição pública terá inevitavelmente mais alma, mais ornamento e mais conteúdo simbólico. Via de regra não há no edifício evangélico sequer uma cruz ou crucifixo, porque nosso distanciamento simbólico se estende até mesmo a Jesus. Nada queremos com o Jesus histórico que percorreu a Palestina ou os evangelhos, nem com o Filho de Deus que tocou a cruz, de onde poderia nos intimidar; só queremos saber do Cristo invisível, que não tem como nos constranger com seu olhar, e que habita o céu, de onde pode incessantemente nos favorecer. Desconhecemos a noção de que lugares possam se tornar imbuídos de significado (e portanto de valor), pelo que vendemos sem pestanejar a propriedade em que nos reuníamos para construir templo maior ou mais conveniente em outro lugar.

Nenhuma outra nação encarna essa dissociação com a história de modo mais formidável do que os Estados Unidos, país evangélico por excelência, e que em conformidade com essa vocação opera de modo a ignorar deliberadamente qualquer outra história (e portanto qualquer outro valor) que não seja a sua. Os aspectos bélicos e mercantilistas da missão civilizadora/evangelizadora dos Estados Unidos explicam-se por esse rompimento radical com a história de outros povos e culturas. Os norte-americanos se compadecem grandemente de países que não são os Estados Unidos – lugares pagãos como a Namíbia, a Itália, a União Soviética e o Sri-Lanka – e tomaram sobre os ombros a tarefa de salvar o mundo, estendendo a todos a sombra redentora da sua bandeira. Intuem que os povos só serão de fatos redimidos quando forem liberados por seus exércitos, ou quando encontrarem a luz do valor supremo do poder de compra. Nisso são impulsionados pela dó que têm dos povos que não compartilham de suas datas cívicas; representam o primeiro império da história impelido pela sinceridade da sua compaixão.

Outra consequência da dissociação evangelical com as raízes da história é que nos tornamos um povo que não tem a quem prestar contas. Não só os erros da Igreja Católica não nos dizem respeito; também não queremos ser julgado pelas imprudências de Lutero, pelas imoderações de Calvino, pelos exageros dos missionários entre os índios, pelas omissões dos cristãos na Alemanha nazista, pela desfiguração de culturas confrontadas com o capitalismo cristão, pelo usurpação de recursos ambientais que pertenciam muito claramente a todos. Na verdade nossa dissociação com o passado é tamanha que não queremos ser responsáveis pelo que nós mesmos fizemos em nosso próprio tempo de vida. Erigimos dessa forma, e com a assombrosa conivência de Deus, um reino de impunidade.

Em retrospecto, não é de estranhar que o capitalismo industrial e o protestantismo sejam gêmeos nascidos no mesmo berço. Como gentilmente diagnosticado por Marx, a consequência mais incontornável do capitalismo é a alienação – alienação que, para o bem ou para o mal, acabou determinando todos os aspectos do desenvolvimento cultural, social e econômico que veio depois. Não é exagero supor que a alienação capitalista só tenha se tornado possível a partir da alienação anterior, o sacro rompimento do movimento protestante com a história prévia do movimento que se levantaram para reparar.

***

Justamente por desconhecermos a história, raramente paramos para avaliar o que perdemos nessa transação de adquirir o futuro vendendo nossa parte da herança com o passado. Gostaria de mencionar uma única baixa que tomo por especialmente representativa do prejuízo como um todo: a perda da capacidade de ajoelhar-se diante das coisas.

Ao contrário do que católicos costumam fazer, os evangélicos absolutamente não se ajoelham diante de coisas (digamos, cruzes, imagens ou lugares sagrados). Aprendemos e confessamos que o verdadeiro crente deve dobrar-se apenas diante do Deus invisível ou do Cristo (invisível), seu sócio e representante autorizado.

O paradoxo está em que quando se ajoelham diante de imagens ou de relíquias ou capelas os católicos estão fazendo confissão oposta à que atribuímos a eles. Enquanto se dobram diante do que é meramente material, estão reconhecendo tacitamente que os objetos por si mesmos não se bastam e não se explicam; estão confessando que as coisas não se esgotam em sua utilidade imediata e não se constituem na definição última da realidade. Devidamente instruídos pela mentalidade medieval, eles intuem que o valor das coisas não está em sua função utilitária, mas em sua função simbólica. As coisas apontam para outra realidade; as coisas remetem.

Ajoelhar-se diante das coisas, incrivelmente, é colocar as coisas no seu devido lugar – porque ao fazê-lo reconhecemos simultaneamente a sua insuficiência, sua condição de emblema de uma realidade impalpável, transcendente e superior. Nós, que nunca beijamos os pés de uma Maria ou deixamos os joelhos tocar o mármore frio diante de um Crucificado, desconhecemos por completo esse assombro. Somos paupérrimos de conteúdo simbólico e virgens de transcendência; porque nos recusamos a tocar o material, somos privados da realidade intangível a que as coisas silenciosamente remetem.

E precisamente nós de herança protestante, que não nos ajoelhamos diante de coisas, somos os que alçaram sacrilegamente as coisas a um patamar de valor que muito claramente as coisas não têm. Somos os inventores e os contínuos promotores do capitalismo industrial que gerou os holocaustos do neoliberalismo contemporâneo; aperfeiçoamos a ciência do lucro, engendramos o culto da performance e evangelizamos o mundo com a terrível nova de que ser livre é ter a capacidade de adquirir. Vivemos em torres de ganância, oramos por prosperidade material, decretamos o insucesso financeiro dos nossos inimigos, dedicamos a vida a angariar os bens de que não iremos precisar – e chamamos o que eles fazem de idolatria.

Fonte: A Bacia das Almas