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19.9.11

Os bispos protestantes

Nossa época é marcada por um desconhecimento da história da Igreja no mundo e no Brasil. Alguns conhecem a história do seu próprio ramo do cristianismo, e quase nada dos demais, sejam membros da igreja de Roma ou das igrejas Reformadas (e essa entre si), assim como em relação às igrejas do Oriente: bizantinos, pré-calcedônios, nestorianos e uniatas. Um presentismo secular desconfia de tudo o que significa passado. Com o anabatismo da “reforma radical”, inaugurou-se a visão de uma “apostasia geral da Igreja”, com o Espírito Santo pretensamente se ausentando da história entre Constantino e Lutero. Essa mesma vertente restauracionista foi responsável por uma eclesiologia localista (igreja = comunidade local), bem como pelo dualismo neoplatônico entre “igreja visível” e “igreja invisível”. Para o teólogo Samuel Escobar (FTL), o protestantismo latino-americano foi “anabatistizado”. Com a presença pioneira de congregacionais, batistas e presbiterianos (com suas formas de administração), o episcopado foi associado intrinsecamente com o romanismo, e, como tal, rejeitado. A presença, nas últimas décadas, de “bispos” e “apóstolos” em denominações neo(pseudo)pentecostais tem sido vista ora como imitação do romanismo, como afirmação de poder pessoal, ora como algo pitoresco. Pouca gente se deu conta de que bispos anglicanos (episcopado histórico) e metodistas (episcopado administrativo) têm atuado nesse continente por mais de um século, e que muitas denominações pentecostais clássicas adotam um episcopado administrativo não-nominado (superintendentes, pastores-presidentes). A história atesta que o episcopado foi estabelecido em todos os ramos e regiões da cristandade menos de dois séculos depois da ressurreição do Senhor, se manteve como a única forma por mil e quinhentos anos, é adotado hoje, em suas diversas variações, por noventa por cento da cristandade, e foi tido como compatível com a Reforma Protestante (luteranos e anglicanos), que sua adoção por novas denominações sinaliza a busca do preenchimento de um ministério (“episkopé”) perdido ou distorcido, e que sua aceitação, à luz da experiência histórica e corrigidas as distorções, se constituiria em um passo importante para a saúde espiritual da Igreja. Se a fórmula “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” contou para os Pais Apostólicos e os Pais da Igreja no fechamento do cânon bíblico, na redação dos credos com suas doutrinas centrais, e na formalização dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor, por que o Espírito Santo seria excluído (“pareceu bem apenas para nós”) na definição do episcopado? Seriam as outras decisões “espirituais”, e essa apenas “humana” (dualismo)? Haveria fundamento para a ótica da burguesia do século 16 em reler “presbiterianamente” a Igreja Primitiva, e de setores mais populares fazerem “congregacionalisticamente” o mesmo (com pretensões democratizantes), segundo o contexto secular da época? Sendo uma instituição um ser que requer tempo para a sua formação, não estaria o congregacionalismo absolutizando o “óvulo” e o presbiterianismo o “embrião”, quando o episcopalismo representou o ser já nascido? No início do segundo século, Inácio de Antioquia fazia referência ao tríplice ministério: bispos, presbíteros e diáconos, entendendo os bispos como sucessores do ministério apostólico. O mesmo fez Policarpo de Esmirna, afirmando o ter aprendido com os apóstolos. Com a prática universalmente estabelecida, o episcopado foi alvo de sistematização teórica por Cipriano de Cartago, no terceiro século, com os bispos escolhidos pelo clero e pelo povo e governando de forma participativa. Escreveu um historiador: “Depois da morte dos apóstolos, a responsabilidade apostólica passou a personalidades como Tito e Timóteo, o que representa uma nítida cristalização da função episcopal. No começo do século 2, a estrutura desta função desenvolveu-se plenamente em seu conjunto [...]”. A Conferência de Lambeth, de 1988, define o bispo como sendo: “[...] símbolo da unidade da Igreja em sua missão; mestre e defensor da fé; pastor dos pastores e do laicato; capacitador da pregação da Palavra e da ministração dos sacramentos; líder na missão [...] voz da consciência da sociedade [...] profeta que proclama a justiça de Deus [...] cabeça da família [...]”. Há preocupações com a escandalosa divisão da cristandade, com grupos congregacionalistas responsáveis por noventa por cento dessa proliferação. Não teria sido a criação dos modelos congregacional e presbiteriano, no século 16, uma equivocada concessão ao espírito do século? Quando setores do luteranismo procuram adotar um episcopado histórico, ou os batistas da Geórgia sagram os seus bispos com sucessão apostólica, não são sinais de uma busca crescente de recuperação desse ministério, resistido, ainda, por uma era de rebeldia? Muitos ainda carecem estudá-lo sem preconceitos. Nós, bispos protestantes, não somos pitorescos imitadores de Roma, mas modestos herdeiros do ministério apostólico.

Robinson Cavalcanti
Fonte: Ultimato

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