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19.11.11

A Subjetividade do Discurso Conservador

Participei no Facebook de duas discussões irrelevantes mas que demonstram bem a superficialidade dos argumentos daqueles que perpetuam os costumes antigos de maneira 'doutrinária' (como se fosse pecado andar fora dos costumes).

A primeira discussão tinha a ver com tatuagem. Eu disse que queria uma tatuagem e alguém surgiu contrariando minha vontade baseado supostamente na Bíblia. Seus argumentos se baseavam basicamente em duas idéias bíblicas que são intrínsecamente relativas.

[detalhe importante: não estou dizendo que a Bíblia é relativa. Uma doutrina teológica coerente se baseia em premissas objetivas da Bíblia. O que estou dizendo é que os argumentos a seguir usados para fundamentar uma vida "dentro dos costumes" são eles próprios relativos quanto ao seu sentido, visto que tratam, isoladamente, de idéias contextualizadas temporalmente e que são 'induzidos' - do particular ao geral - da maneira que o discurso convier]

A primeira dizia que "tudo me é licito mas nem tudo me convém". Esse é um argumento de Paulo quando escreve aos Corintios. Para os conservadores, esse argumento é uma forma sofisticada de apontar o dedo e criticar as atitudes diferentes daquelas tidas como "cristãs" pelos membros de determinada comunidade. No contexto, porém, Paulo está tratando do corpo, pregando a santificação, contrastando-a com a prostituição. Além disso, Paulo vinha citando uma lista de atitudes - idolatria, adultério, sodomia, roubo, avareza, etc - que não conduzem ao Céu. Portanto, Paulo estava pregando a Santificação.

A segunda dizia que "A Bíblia é um livro de princípios". Esse ponto não tem uma passagem explícita pra citar, e também é relativamente razo pra usar como argumentação quando dito simplesmente assim.

A segunda discussão que participei tinha a ver com a pessoa não entender como alguém pode se dizer cristão e não viver dentro dos princípios da vida cristã. A discussão fica subjetiva e sem muito o que se colocar de maneira lógica porque nunca se determinam os tais princípios. Os "princípios da vida cristã" é uma outra forma de usar o segundo argumento da primeira discussão.

Vamos, então, tentar esclarecer o que "me é licito mas não me convém" e o que são os tais "princípios da Bíblia" também conhecidos como "princípios da vida Cristã".

Jesus um dia disse que a lei (o Velho Testamento) se resumia em duas Leis Divinas: Amar a Deus acima de todas as coisas e Amar ao próximo como a si mesmo. Deus, quando libertou o povo de Israel do Egito, Ele mesmo entregou uma forma mais específica de como se poderia cumprir essas Leis - a saber, os 10 mandamentos. Moisés, baseado nesses 10 mandamentos e obviamente inspirado por Deus, criou uma infinidade de outras regras.

Assim, os Princípios da vida Cristã, que são os mesmos da vida Judaica, são explicados por Deus como sendo os 10 mandamentos. Qualquer um que não cumpra os mandamentos está pecando. Vamos abstrair idéias como o Sábado nesse texto - já escrevi sobre isso outro dia.

Como o homem é incapaz de cumprir ele próprio todos os mandamentos de maneira perfeita, Deus mandou Seu Filho para cumprí-los em nosso lugar, fazendo salvos a todos os que crerem nessa História. Isso é o Evangelho. Assim, o argumento de que alguém não pode se dizer cristão se não viver nos princípios da vida cristã é mais do que falho, visto que NINGUÉM é capaz de cumprir tais princípios - se alguém o fosse, não precisaria de Jesus, o que é inconcebível.

Quando a questão de "algumas coisas me serem lícitas mas não me convirem": eu acho que é muito mais coerente interpretar que Paulo está dizendo que, por mais que a lei local me dê liberdade pra muitas coisas, se essas coisas forem de encontro aos princípios de Deus (os mandamentos), eu não devo fazê-las. É o caso de algumas coisas da lista que ele cita anteriormente, assim como a prostituição que ele cita a seguir.

Fica aqui, por fim, meu comentário sobre tais argumentos. Ultimamente tenho concluído que muitas das contradições das igrejas por aí a fora - Assembléia de Deus principalmente - é por falta de entendimento de alguns conceitos chave na Bíblia, tais como Justificação, Santificação, Evangelho e Graça. Tenho feito um esforço pra escrever sobre eles de forma que, no futuro, eu possa linkar algum de meus textos quando estiver tentando esclarecer alguma idéia.

Paztejamos

10.11.11

Justificação; e me Desculpem os Ortodoxos

[Esse post é o resultado de um dialogo com o Duilio depois do culto de ceia, quando paramos à sombra de uma árvore no meio do caminho de casa e ficamos por em torno de uma hora falando sobre as muitas coisas da nossa igreja que sempre temos de assunto]

Última Ceia meu pastor fez uma pregação contraditória. Começou o discurso dizendo como os nossos cultos as vezes são frios e ele volta pra casa sem sentir o Espírito Santo - visto que a igreja não ora e nem jejua com determinada frequência - e terminou, dizendo que, para crentes com poder do Espírito Santo não tem culto ruim. O meio do discurso soou um tanto acusador, do tipo que até tem a boa intenção de motivar o crente mas que acaba por colocar um pesado fardo de culpa nos ombros de quem escuta, que fica a pensar "meu Deus, eu não consigo ser assim! :'("

[Antes que as más linguas saiam dizendo que estou criticando meu pastor advirto: sim, estou criticando meu pastor, mas num bom sentido e de maneira cordial. Não estou atacando-o ou desprezando-o. Concordo com boa parte do que ele prega - afinal se não não seria meu pastor - mas as vezes, como é com quase todo mundo de que gosto, discordo de suas opiniões ou discursos. Quanto ao mais, como se sabe, não me importo com o que digam, assumo minhas posições de cara limpa e não tenho medo de mudar de idéia mais adiante, caso minha consciência concorde.]

Terminado o culto, fui falar com o Duilio que, como eu, tinha percebido o 'paradoxo'. O problema surge no que o Duilio chamou de "dedo legislador" - guarde essa idéia, ela vai aparecer de novo.

Antes de tudo eu quero deixar uma coisa clara. O conceito de graça é como o conceito de Pós-Modernismo: na prática ninguém sabe o que é, ou sabe aplicar no dia-a-dia; só sabe que precisa usar pra denegrir a doutrina de outra igreja ou pra criticar o discurso de alguém. Quero apresentar então esse conceito de maneira mais evidente. A Graça de Deus é a nossa Justificação.

Funciona assim: Deus é amor, mas é justiça também e, por sua justiça, não pode aceitar que pecadores entrem em comunhão com Ele. Pra resolver esse empasse, Deus enviou Seu Filho Jesus para viver uma vida sem pecados e morrer em nosso lugar. Isso porque ninguém é capaz de viver uma vida perfeita, sem pecados, sem falhas, mesmo que ore 8h por dia, leia os Salmos todos os dias, dê um dízimo de 20% e jejue 4 vezes por semana. Assim, todo o que crê em Jesus está justificado nEle, e só assim! Pronto, na teoria, estamos entendidos.

O problema é que na vida real os crentes tem um comportamento farisaico do tipo que precisa fazer X, Y ou Z pra "complementar" o sacrifício de Jesus. Isso é o dedo legislador: a "receita de bolo" que o farisaismo evangélico prega quando diz que precisamos orar mais, jejuar mais, ler mais a Bíblia, e - pasmem! - gritar mais glórias a Deus e Aleluias, porque se não o Espírito Santo não opera, os paralíticos não levantam, os mudos não falam e o povo não vê mover de Deus.
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Há algumas semanas atrás esteve nos cultos da mocidade o Coral Kemuel, cujo talento musical é indiscutível. Dados a baixa qualidade sonora do ambiente de culto - um ginásio - e a estrutura inadequada de som, levei meus protetores auriculares pra não arrebentar meus ouvidos. O que me chamou a atenção foi a imunidade que eles tinham quanto as roupas que vestiam, francamente pouco 'assembleianas'. Queria que a igreja fosse sempre permissiva nesse sentido, para que eu não tivesse que usar terno com tanta frequência.

Semana seguinte foi congresso dos adolescentes e, num culto que eu não estava - me contaram -, esteve um jovem pregando. Me limito a dizer que ele condenou veementemente os 'usos e costumes' do Coral Kemuel, mesmo sendo ético suficiente pra não cita-los.

O que eu vejo aí? Esse é o grande motivo por que esse jovem estava pregando e não eu. Porque eu não me conformei com esse sistema igrejístico falido que não traz ninguém a luz e que aprisiona pessoas a ritos e costumes que, se não cumpridos a risca, colocam em risco a possibilidade de herdar o céu. Eu não aceitei sem questionamentos a religião em detrimento da Graça salvadora de Cristo que me livra gratuitamente de todo o mal que há em mim sem que eu me esforce para isso (deixei bem destacado o que eu entendo por graça).
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A essa altura alguém pode estar pensando "mas então o Jean não ora, não jejua, não lê a Bíblia e nem dá o dízimo?". Na verdade eu oro e leio a Bíblia. O dízimo eu não dou porque não trabalho, apesar de que se trabalhasse direcionaria meu dízimo de maneira bem mais eficiente, entregando como oferta provavelmente pro departamento de música, onde eu sei que as coisas vão ser bem aproveitadas. Quanto ao jejum: raramente... me desculpem os ortodoxos, mas eu jejuo só quando tenho causa bem definida.

Quanto a minha oração, eu não ajoelho e oro naquele formato caricato do assembleiano "Maravilhoso Deus e Eterno Soberano e Grandioso Pai, em Tua Presença nos colocamos nesta hora para exaltar e adorar teu Santo e Bondoso Nome..." NÃO! Eu gosto de orar nas viajens de ônibus enquanto estou olhando pra natureza ou quando caminho sozinho, além de antes de dormir... sempre com meu próprio vocabulário e tranquilo porque estou falando com meu Pai, não com um Senhor Feudal.

Já minha leitura da Bíblia eu faço de muitas maneiras. As vezes eu leio até a hora que dá porque a leitura está interessante; as vezes abro em algum lugar de interesse e acabo seguindo a leitura; as vezes não aguento mais a pregação gritalhada na igreja e leio uma carta pequena (como João II ou Tiago)... Leio conforme me dá vontade.

Mas faço tudo isso porque Deus já me salvou e eu sinto que quero aprender mais de um Cara que gosta tanto de mim que sofreu, se humilhou e morreu por mim. Eu faço tudo isso porque quero retribuir a Graça que Deus me deu de uma forma que eu não sei como e que eu tento sempre encontrar mas que não é suficiente.

Mas me desculpem os ortodoxos se eu não me presto a acordar cedo domingo de manhã porque as vezes estou com preguiça de ir lá na igreja tomar uma representação mal feita da Santa Ceia quando, derrepente, eu estava Sábado de noite comendo um xis com os amigos e falando de Deus de maneira descontraída numa representação muito mais realista e natural do que era a Santa Ceia. E me desculpem os ortodoxos se por acaso eu não me interesso em ir nas orações ou vigilias e virar a noite em sessões horrorosas de choros, orações pentecostalizadas, prantos, profetadas ou hinos em tom menor com natureza emocionante.

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Outro tipo de gente pode estar pensando "pelo jeito o Jean vive de maneira muito permissiva, fazendo o que não deve por aí... nesse caso não queremos um libertino no nosso meio!".

Um dos pontos da minha conversa com o Duílio era sobre como os luteranistas (estou distinguindo os luteranos - da igreja luterana - dos luteranistas - fãs de Lutero) se agarram com muita força na graça ignorando a santificação. Quando o Duilio me comentou isso eu disse "então eles não leram Gálatas?!". A primeira citação que me vem a cabeça é o conselho de Paulo pra não dar ocasião a carne aquele que é livre em Jesus. O texto que eu linkei acima (sobre o pós-modernismo) exprime de maneira detalhada a minha opinião sobre Santificação.

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Enfim. Ainda preciso fazer ressalvas muito importantes sobre minha opinião sobre uma Ortodoxia mais lógica e rígida. A forma como me refiro aos ortodoxos aqui é evidentemente pejorativa. Os ortodoxos são todos aqueles que olhem enviezado qualquer que pise numa igreja de bermuda ou boné. Aqueles que acham que o terno é a roupa do crente, que quando escutam um sermão calmo e reflexivo chamam o culto de missa e que compulsivamente gritam "glória a Deus" e "Aleluia" mesmo que, a cada grito, nem prestem atenção no que estão dizendo.


Mas virá um texto a seguir sobre os Ortodoxos com letra maiúscula que se importam mais com a opinião de Deus do que com frescuras.

E não posso terminar o texto sem antes dizer que discordo grandemente do meu pastor quando ele diz que acha que nossa igreja tem que "voltar as raízes". Se as origens são zueira e gritaria que supostamente confirmam o agir de Deus, então não devemos voltar as "raízes". Se eu não fosse crente e chegasse na igreja 'tomada pelo espírito', diria, como pressupôs Paulo na carta aos Coríntios, que todos estão loucos. Prefiro dez mil vezes uma igreja onde prevalece o tom reflexivo que nos faz meditar para sermos melhores com Deus e com os outros. Até porque foi nas "raízes" que nasceram as absurdas bizarrices evangélicas como "mulher não pode cortar o cabelo nem usar calça ou brincos" e "homem não pode usar bermuda nem deixar a barba". As raízes são um passado que graças a Deus passou. Agora avancemos, não retrocedamos.

Paztejamos