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24.11.12

Moralmente encurralados

Essa semana peguei o ônibus com um amigo - por motivos diversos creio ser sábio não mencionar o nome - e discutimos sobre uma coisa que me parece ser sempre a mesma discussão sobre roupagens diferentes. Falávamos sobre os extremos carnais da libertinagem ou do legalismo e, como a forma como o assunto se desenvolveu pareceu frutífera para uma discussão ampla (não só cristã) sobre comportamento ético, achei o tipo de coisa que poderia colocar aqui.

A carne humana no cristianismo é algo como o 'instinto' ou a vontade decorrente do prazer. É aquilo que nos incita a fazer algo que vai nos dar prazer, independente de algum valor moral. Nesse aspecto, podemos dizer que a carne, por exemplo, é a responsável pela nossa vontade de comer picolé no verão (moralmente sem problemas), tanto quanto a responsável pela nossa vontade de matar alguém que nos faz algum mal (moralmente inaceito). Esse é um conceito que extrapola o cristianismo, porque qualquer um pode conceber essa ideia sem precisar levar em conta qualquer ideal ou valor cristão. A carne é a responsável pela "busca do prazer", em síntese.

Dado isso, os dois extremos ligados a esse conceito são: "aceitar todos os prazeres da carne" ou "negar todos os prazeres da carne". São o que chamamos no começo de "libertinagem" e de "legalismo". Esses são apenas nomes, mas o necessário é conceber a ideia. Aceitar todos os prazeres significa ceder a todas as vontades, fazer tudo o que deseja, viver a vida 'sem limites'. Geralmente se associa esse tipo de comportamento no meio cristão a, sei lá, "sexo, drogas e rock and roll", mas isso implica também comportamentos mais destrutivos a si mesmo e ao próximo. De qualquer forma, é instintivo ter esse extremo como prejudicial, destrutivo, não saudável.

Do outro extremo, ao contrário, temos os comportamentos ligados a negação absoluta da carne. São coisas como viver como um monge, ou, como é mais comum no meio cristão mainstream, "orar X horas por dia", "fazer jejum X vezes por mês" ou "ler X capítulos da Bíblia por dia", além de (como são nas igrejas mais esquisitas/engraçadas) "saia, cabelo cumprido e zero maquiagem" :P Esse é um extremo ligado a um terrorismo santificador, uma prisão, uma tortura chamada de religião. Pra qualquer um que não viva dessa forma, esse comportamento é exagerado, destruidor, maléfico de qualquer forma.

[Postos os dois extremos, fica a ressalva cristã: dada a soberania divina, Deus não é obrigado a operar no segundo caso, assim como proibido de operar no primeiro. Qualquer um dos dois tem livre acesso a Deus pela vontade dEle. Isso não sou eu que 'afirmo', é uma ideia, aceita consensualmente, chamada Graça, explicitamente mencionada por Paulo em suas cartas.]

Dado que tanto um quanto outro extremo moral é prejudicial, deve haver algum 'meio termo' onde se possa estar. Aparentemente, no contexto cristão, foi o que Jesus sugeriu: "um caminho do meio" ético, onde se possa "ponderar todas as coisas e escolher a melhor forma de lidar com cada uma". Bom, mesmo que não se seja cristão, há de se convir que nenhum dos dois extremos parece conveniente e, assim, um caminho do meio parece ser a melhor escolha.

O caso é que, para qualquer caminho do meio, em qualquer ponto intermediário entre extremos, somos igualmente hipócritas. Essa é uma conclusão extra-cristã. Digo, Por mais que desejemos ser coerentes em nossas escolhas, não conseguimos ser plenamente éticos quando expostos a análises mais profundas. Por que alguém pode matar insetos e plantas, mas não animais? Por que é aceitável que alguém roube pra comer, mas não pra comprar cachaça? O que diferencia a pena de morte a uma criança da pena de morte a um criminoso - nesse caso, ainda mais, por que condenamos à morte crianças e não criminosos? Não estou promovendo a discussão, e por mais que alguém se ache com respostas aceitáveis a essas questões (o que eu duvido muito), sempre haverá outras sobre as quais haverá silêncio. E o motivo é que somos moralmente movediços, porque relativizamos determinados conceitos, e extremamos outros, conforme nossa conveniência. Algum cristão pode relacionar essa conclusão à menção bíblica que afirma que a justiça humana é "como trapos de imundícia". Eu não posso concordar mais.

E, se não conseguimos justiça por nós mesmos, se estamos moralmente encurralados, se não há lógica humana que permita justificação, então só podemos apelar para justiça divina. Essa sim, posso afirmar, é uma conclusão cristã. Qualquer não cristão pode adotar o destrutivo comportamento de assumir que essa é a realidade pessimista em que nos encontramos, e nisso não há contradição. Mas nós cremos, e temos absoluta confiança, de que Jesus é a nossa justiça. A única que pode salvar o homem caído e pecador, o qual nenhum comportamento moralmente aceito e não-destrutivo consegue justificar.

19.11.12

Sobrestimado Livro

Nunca fui de ler muitos livros. Se lia dois ou três por ano, era por obrigação da faculdade e sempre empurrando com a barriga até a leitura se tornar inevitável. Como eu gostava de dizer - e até pouco tempo dizia, antes de entrar numa onda de estudos pra concursos - não gostava de nada que tivesse mais do que 50 páginas. Mesmo assim, nunca me considerei mais ignorante que meus colegas, ou mais estúpido, burro, entravado... pelo contrário, sempre soube desenvolver meus argumentos de igual pra igual em discussões (talvez porque eu adore discutir). Aliás, talvez o leitor se identifique, porque, por menor que seja a bagagem literária de alguém, qualquer adolescente consegue bons argumentos pra sair à noite ou posar fora de casa.

Só que, e de uns tempos pra cá tenho reparado nisso, tem sempre uma "superioridade amistosa" em quem lê livros, quando comparado a quem não tem esse hábito. É como se dissessem "ah, meu amigo burrinho que não lê, eu não me importo que tu seja burrinho; sou superior a essa nossa diferença cultural, apesar de que tu seria muito mais inteligente se lesse o que eu leio, que é o caminho certo pra chegar ao nirvana intelectual".


E o meu palpite sobre o motivo pelo qual isso acontece é que livro e leitura se confundem: quando alguém fala em ler, sempre pensa em ler 'livros', o que torna o livro o representante-mor da leitura, a leitura por excelência, o que implica dizer que quem não lê livros, não lê, e quem não lê - e esse é um ponto de vista bastante moralizante - é um ignorante, bocaberta, estúpido. Daí que, sob tons alterados de discussões na internet, alguém se autoafirma mestre sobre certo assunto dizendo "tu diz isso porque não leu XYZ!", onde XYZ é algum livro de alguém que só pode ser um "guru" sob o qual a verdade se dobra. Claro que, nesses casos a 'amistosidade' do parágrafo anterior já foi pro brejo e sobrou só a 'superioridade'.


Mas o caso é: qual a diferença do livro pra outras mídias? Sei lá, eu (e muitos jovens da nossa época), as vezes, aprendo muito mais assistindo a vídeos tutoriais do que lendo um manual chato; me interesso muito mais na "leitura" de um filme do que de um romance - aliás, detesto romances -; e as vezes assimilo muito mais informação ou fantasia ouvindo um rádio ou mesmo ouvindo uma pessoa me contar uma história ou lendo um mangá. (A propósito, questão filosófica: mangá é livro?)

E também: tem gente que lê pra caramba, mas não entende o que lê - inclusive quando lê as mesmas coisas mais de uma vez. Eu conheço crente que lê a Bíblia 5 vezes ao ano e ainda continua com as mesmas neuras sobre cabelo, saia, barba e terno. Isso porque não lê mais livros sobre o assunto, ou as vezes até lê, mas não os certos, ou não entende o que lê... Mesmo assim, num confronto com quem não lê, essa leitura é "autoridade", mesmo que esse que não lê tenha assistido muitas horas de vídeo ou ouvido e participado de muitas discussões sobre o assunto.

Nesse aspecto o livro é implacavelmente sobrestimado: só se derruba um leitor com outro leitor, o que é uma grande bobagem, convenhamos. A única coisa que a leitura não vence é um diploma - o que na verdade também remete a leitura, porque o diploma nada mais é do que o certificado de quem passou muitas horas "estudando" (ou "lendo muitos manuais e obras") sobre aquele determinado assunto.

Claro que estamos tratando de assuntos humanos. Um engenheiro demonstra que sabe resolver integrais triplas resolvendo integrais triplas. Não precisa convencer de sua autoridade, já que sua demonstração é objetiva. Um calouro na escola de engenharia pode resolver integrais triplas com muito mais facilidade que um veterano e isso demonstra objetivamente o quanto ele sabe mais sobre o assunto que o veterano. O problema é quando as coisas estão nesse limiar objetivo/subjetivo humano onde cada um constrói a sua própria realidade com base em sua bagagem cultural e depois a confronta com a dos outros, o que as vezes se torna como perguntar "tu prefere limão ou samba?", o que é um problema sério de categorias.

De qualquer forma, livros são legais (principalmente quando têm cheiro de novos). Admito seu valor. Aprendi muito com eles - mesmo forçosamente, as vezes. Só detesto ver essa arrogância enrustida de inteligência que alguns mostram por aí - principalmente quando descabida, quando é de gente que só lê best seller frufru sem muito conteúdo. Adaptando um pouco a frase de um amigo no Facebook outro dia: "livros são o principal instrumento pra gente burra ostentar suposta inteligência".