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19.11.12

Sobrestimado Livro

Nunca fui de ler muitos livros. Se lia dois ou três por ano, era por obrigação da faculdade e sempre empurrando com a barriga até a leitura se tornar inevitável. Como eu gostava de dizer - e até pouco tempo dizia, antes de entrar numa onda de estudos pra concursos - não gostava de nada que tivesse mais do que 50 páginas. Mesmo assim, nunca me considerei mais ignorante que meus colegas, ou mais estúpido, burro, entravado... pelo contrário, sempre soube desenvolver meus argumentos de igual pra igual em discussões (talvez porque eu adore discutir). Aliás, talvez o leitor se identifique, porque, por menor que seja a bagagem literária de alguém, qualquer adolescente consegue bons argumentos pra sair à noite ou posar fora de casa.

Só que, e de uns tempos pra cá tenho reparado nisso, tem sempre uma "superioridade amistosa" em quem lê livros, quando comparado a quem não tem esse hábito. É como se dissessem "ah, meu amigo burrinho que não lê, eu não me importo que tu seja burrinho; sou superior a essa nossa diferença cultural, apesar de que tu seria muito mais inteligente se lesse o que eu leio, que é o caminho certo pra chegar ao nirvana intelectual".


E o meu palpite sobre o motivo pelo qual isso acontece é que livro e leitura se confundem: quando alguém fala em ler, sempre pensa em ler 'livros', o que torna o livro o representante-mor da leitura, a leitura por excelência, o que implica dizer que quem não lê livros, não lê, e quem não lê - e esse é um ponto de vista bastante moralizante - é um ignorante, bocaberta, estúpido. Daí que, sob tons alterados de discussões na internet, alguém se autoafirma mestre sobre certo assunto dizendo "tu diz isso porque não leu XYZ!", onde XYZ é algum livro de alguém que só pode ser um "guru" sob o qual a verdade se dobra. Claro que, nesses casos a 'amistosidade' do parágrafo anterior já foi pro brejo e sobrou só a 'superioridade'.


Mas o caso é: qual a diferença do livro pra outras mídias? Sei lá, eu (e muitos jovens da nossa época), as vezes, aprendo muito mais assistindo a vídeos tutoriais do que lendo um manual chato; me interesso muito mais na "leitura" de um filme do que de um romance - aliás, detesto romances -; e as vezes assimilo muito mais informação ou fantasia ouvindo um rádio ou mesmo ouvindo uma pessoa me contar uma história ou lendo um mangá. (A propósito, questão filosófica: mangá é livro?)

E também: tem gente que lê pra caramba, mas não entende o que lê - inclusive quando lê as mesmas coisas mais de uma vez. Eu conheço crente que lê a Bíblia 5 vezes ao ano e ainda continua com as mesmas neuras sobre cabelo, saia, barba e terno. Isso porque não lê mais livros sobre o assunto, ou as vezes até lê, mas não os certos, ou não entende o que lê... Mesmo assim, num confronto com quem não lê, essa leitura é "autoridade", mesmo que esse que não lê tenha assistido muitas horas de vídeo ou ouvido e participado de muitas discussões sobre o assunto.

Nesse aspecto o livro é implacavelmente sobrestimado: só se derruba um leitor com outro leitor, o que é uma grande bobagem, convenhamos. A única coisa que a leitura não vence é um diploma - o que na verdade também remete a leitura, porque o diploma nada mais é do que o certificado de quem passou muitas horas "estudando" (ou "lendo muitos manuais e obras") sobre aquele determinado assunto.

Claro que estamos tratando de assuntos humanos. Um engenheiro demonstra que sabe resolver integrais triplas resolvendo integrais triplas. Não precisa convencer de sua autoridade, já que sua demonstração é objetiva. Um calouro na escola de engenharia pode resolver integrais triplas com muito mais facilidade que um veterano e isso demonstra objetivamente o quanto ele sabe mais sobre o assunto que o veterano. O problema é quando as coisas estão nesse limiar objetivo/subjetivo humano onde cada um constrói a sua própria realidade com base em sua bagagem cultural e depois a confronta com a dos outros, o que as vezes se torna como perguntar "tu prefere limão ou samba?", o que é um problema sério de categorias.

De qualquer forma, livros são legais (principalmente quando têm cheiro de novos). Admito seu valor. Aprendi muito com eles - mesmo forçosamente, as vezes. Só detesto ver essa arrogância enrustida de inteligência que alguns mostram por aí - principalmente quando descabida, quando é de gente que só lê best seller frufru sem muito conteúdo. Adaptando um pouco a frase de um amigo no Facebook outro dia: "livros são o principal instrumento pra gente burra ostentar suposta inteligência".

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