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13.3.13

Quando Eu Quase Me Tornei Judeu


A proposta me era realmente sedutora: viver a fé do primeiro século! Viver o que realmente ensinou Cristo e os seus apóstolos!

Aliás, para começar, tinha de me desfazer dessas nomenclaturas católicas-romanas. Cristo não, Messias. Ou melhor, Mashiach. Nada de apóstolos, e sim “emissários”. Shelichin para o nível Hard.  Fora com os nomes Deus, Igreja, Lei, Antigo Testamento e Novo Testamento. Isso era coisa dos romanos pagãos! O certo era Elohim, Kehilá, Torah, Tanakh e Brit Chadashá!

Foi mais ou menos assim que conheci o chamado Judaísmo Messiânico. Foi me apresentado como a forma original, judaica, sem poluições pagãs, da mensagem de Cristo...ops, do Mashiach.

Jesus – ou melhor, Yeshua – havia vindo para os judeus. Era um rabino, e sua mensagem seria de um Judaísmo renovado.

Comecei assim uma intensa jornada de estudos. Devorava artigos judaicos – messiânicos ou ortodoxos -, comprava livros do Ensinando de Sião, ouvia as palestras em podcast do grupo Torah Viva.

Com os estudos, vieram os novos hábitos. Me abstive de comer qualquer coisa que contivesse carne suína. Baixei um livro de orações em hebraico, e o recitava duas vezes por dia (as vezes, três). Procurei guardar o sábado, sem muito sucesso.  Deixei de comemorar o Natal, para me empenhar em guardar as festas judaicas. Deixei de ouvir música gospel, para ouvir a Ofra Haza.

Passava muito tempo no meu quarto, isolado. Meu Judaísmo Messiânico era particular e amedrontado, de modo semelhante ao Cristianismo da judia Raquel, de Os Deuses De Raquel.

Mas, não demorou muito, para que viessem os problemas.

Parte considerável do Judaísmo Messiânico não aceitava a divindade de Jesus. O Messias era um rei, e devia ser venerado, não adorado. Digno de adoração, só Elohim. Acabei me alinhando com a postura do grupo Torah Viva, que admitia a Sua Divindade.

O JM condenava o Cristianismo como um todo. O acusava de perversão da mensagem de Jesus, de antissemitismo, e até de instrumento do Diabo – ops, HaSatan – para ascensão do futuro Anticristo – perdão, Anti-Mashiach.  

Com o passar do tempo, me dei conta de que a grande maioria dos “judeus messiânicos” não eram judeus, e sim ex-evangélicos, desencantados com os rumos da Igreja Evangélica brasileira.

A linguagem arrogante, com que se depreciava a Reforma e o Cristianismo me causavam desconforto. Mas essa era a verdade! O que eu poderia fazer?

Então, veio o cisma no Ensinando de Sião. Alguns dos líderes saíram, retornando à fé protestante. O Ensinando de Sião, em retaliação, publicou uma nota de condenação aos dissidentes.

O grupo Torah Viva mudou de direção. Passaram a se concentrar no estudo dos Manuscritos do Mar Morto que, segundo eles, continha a correta interpretação da Torá. Deixaram de se identificar como “judeus nazarenos” – batiam no peito dizendo isso - para serem “judeus do caminho”.

Foi quando me caiu a ficha: eu estava me rebaixando, rejeitando todo o meu conhecimento bíblico e teológico para seguir àquele Movimento. Um Movimento que tinha os mesmos problemas do Cristianismo. E tinha ainda mais um: imaturidade.

Eu havia caído no mesmo erro pentecostal, ou melhor, anabatista, de idolatrar a igreja primitiva e condenar os 2 mil anos de história que se seguiram. De defender a restauração da fé do primeiro século que, na verdade, nunca foi perfeita. Pois era a fé de pessoas imperfeitas, que enfrentaram problemas, divisões, rixas, e todo tipo de problemas.

Retornei a meu protestantismo ingênuo e liberal. Um barco simples, de rumo mais incerto. Mas muito, muito melhor que aquele grande navio do Judaísmo Messiânico, que eu vi rumando para chocar-se contra um iceberg.

Recentemente, me bateu uma curiosidade de ver como andava o grupo Torah Viva. Para minha surpresa (ou não) eles rejeitaram Cristo. Todos os estudos e palestras que fizeram, de uma hora para outra, foram anulados. Possivelmente, vão acabar se filiando ao Judaísmo Ortodoxo.

O Judaísmo Messiânico acabou se revelando, não num caminho de judeus para Cristo, mas num caminho de evangélicos para o Judaísmo.

Um comentário:

  1. [Sempre acabo clicando no lapisinho em vez de nos comentários quando quero comentar, burrice minha xD]

    eu curtia essa ideia de cristianismo 'enfeitado' com linguagem judaica. Aliás, eu curto ainda :) só não me aprofundei muito nessas ideias ondas judaicas, e talvez nunca me aprofunde...

    mas é bom estar nesse pequeno barco solto no oceano, é bom respirar liberdade, por mais amedrontador que isso seja. Se afogar até é mais fácil, mas é muito melhor do que ser escravo dos limites de alguma terra firme.

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