Pesquisa neste blog =D

7.6.13

Ananias, Misael e Asarias - ou - Porque o Sábado

Há mais de um ano me prometo guardar o Sábado. Eia, é Sábado, e olha eu aqui escrevendo sobre isso.

Minhas conclusões sobre o Sábado já foram enunciadas aqui há booooons tempos atrás, e basicamente se resumem a "o Sábado é um mandamento; os mandamentos devem ser guardados; logo, devo guardar o Sábado".

O caso é que, desde então, tenho dito a Deus que, assim que possível, o guardaria, já que, se Deus está pedindo, certamente que isso é para meu próprio bem. E de fato eu creio nisso. Eu vejo virtualmente o grande bem que eu faria a mim mesmo se me desse um momento semanal pra abandonar toda a enlouquecida e frenética correria quotidiana pra refletir sobre assuntos bíblicos, passar um tempo com os amigos e praticar algum bem para outras pessoas.

Mas o fato é que o tempo passa, passa, passa e esse dia - dia em que finalmente eu vou conseguir guardar o Sábado - nunca chega. O fato é que desde que me resolvi por isso, estudo de noite e/ou sábado (esse minúsculo, porque se refere somente ao dia) de manhã, e eu sei, eu tenho plena certeza, que Deus me entenderia se eu dissesse a Ele "por favor Deus, só deixa eu terminar o semestre, que agora já to no meio, e semestre que vem eu começo com isso..." afinal, Ele sabe o quão humanos somos e compreende nossa falta de habilidade em se engajar em alguma coisa que parece despropositada financeiramente.

E é nisso que eu venho me baseando ao longo desse mais de ano. É no "bom Deus, esse semestre tem uma disciplina que tem aula segundas, quartas e sextas, então deixa pro semestre que vem", mesmo sabendo que boa parte dos adventistas (que são os mais célebres sabatistas de então) fazem o esforço de conversar com seus professores para não frequentar as aulas de sexta e, em compensação, entregarem trabalhos semanais - esforço esse que eu tenho preguiça de ter, admito.

Só que a paciência tem esgotado. Não a de Deus, eu sei. Deus é muito legal. Tão legal, mas tão legal, que me permite viver contra minha própria consciência - leia-se, em pecado - sem me dar nenhum peteleco moral que me faça 'guinar' minha vida. Mas a minha paciência comigo mesmo é que está chegando ao fim. Me afastei drasticamente do estilo de vida tipicamente cristão* (vá até o asterisco lá embaixo, explicarei o que quero dizer com isso) e, quando minha vida social chegou num estado inadministrável, percebi que deveria mudar o modelo pelo qual eu vejo a realidade.

O que quero dizer é: a realidade é muito complexa e, para lidarmos com ela, construímos modelos: algo semelhante ao método científico. Esses modelos são pontos de vista sistematizados sobre como as coisas são. O convívio em sociedade é cheio de modelos e simplificações. Só que alguns modelos são incompatíveis com o estilo de vida cristão, e o estilo de vida cristão tem um modelo próprio, onde as pessoas são felizes quando são moralmente corretas, justas, não dadas à violência e voltadas ao bem.

O modelo em que eu estava me baseando antes era mais ou menos como o do James Bond. O 007 consegue todas as mulheres, ganha todo o dinheiro, mata todos os bandidos e, apesar de ser de certa forma "correto", só tem um lado: o seu. O modelo que agora estou adotando, e que é extremamente mais adequado ao estilo de vida cristão é o senhor Miyagi. O mestre Miyagi não gosta de lutar, mas sabe muito bem. Não provoca as lutas, mas sabe se defender. Não tem medo de nada, mas também não fica provocando situações que causariam medo. Como ele mesmo disse no último filme (o Karatê Kid 4, que não é com o Daniel Sam), "lutar nunca é bom, alguém sempre sai machucado. Mas se tiver que lutar, vença".

Voltando à minha mudança: ser o James Bond foi muito bom, no sentido de criar coragem, não ficar parado esperando as coisas acontecerem, não ter medo do inimigo... mas sejamos francos, ser o James Bond nunca vai ser "nobre". Ser o mestre Miyagi é. Então, sabe quando o vilão segura o braço da mocinha e o herói grita "solta ela!"? Eu me olho e sei que nunca teria coragem de dizer isso. Mas quero ter, porque sei que o mestre Miyagi teria.

Só que ser James Bond deteriorou meu relacionamento como nunca antes. Minha namorada tem alguma culpa, mas foi culpa minha também. E tivemos um período bem difícil em alguns tempos (bem próximos) justamente porque, fala sério, se tu olhar um filme do James Bond vai notar: ele não faz nada, a gostosa é que corre atrás dele. Ele é só o cara que come todas. E, sério, isso não é realidade. Na vida real, homem e mulher que querem ter um relacionamento estável precisam se entender, conversar, colocar suas angústias um pro outro, se confiar e serem parceiros. Um relacionamento onde cada um só fica parado exigindo ser agradado nunca vai dar certo. E pra agradar ela eu precisava ser menos relapso e mais atencioso; e pra ela me agradar, precisávamos voltar a frequentar a igreja, cujo afastamento foi a fonte que gerou toda essa mudança de "paradigmas comportamentais".

Assim, nós temos uma série de investidas de volta à igreja: estamos indo de novo na igreja uma vez por semana, nos identificando com uma congregação (nova; já que ela não queria frequentar nossa antiga igreja, estamos frequentando outra. Isso é "consentimento mútuo", ela cede em "ir", eu cedo em "onde ir"), conversando sobre Deus e a Bíblia, e colocando nossos dilemas e dificuldades "nas mãos de Deus" (o que parece uma expressão manjada mas, sério, tem um significado extremamente profundo e trás um alívio tremendo).

[*porque, explicando, isso é o estilo de vida cristão: ler a Bíblia regularmente; frequentar os cultos de alguma congregação; orar periodicamente; e descansar sobre os dilemas de Deus na presença dEle. E note que eu não boto nenhuma "contabilização". O ir na igreja "uma vez por semana" que estamos praticando é o que nós decidimos que é uma frequência razoável. Alguém pode decidir por uma vez por mês e não mudaria em nada a lógica. E também note que não estou dizendo que a congregação frequentada tem que ter X ou Y ou Z doutrinas. Inclusive, eu gosto tanto de ir em igrejas com pensamentos semelhantes aos meus quanto gosto de ir em igrejas com pensamentos discordantes, porque pra mim o essencial é tirar um tempo pra refletir sobre a Palavra, sobre Deus, sobre como Ele é bom e como fazemos parte do plano dEle, aplicando essas reflexões à nossa vida e aos nossos problemas, revisando nossas dificuldades e encontrando meios de lidar com elas de maneira mais sábia. Enfim. (Explico isso porque, quando disse que deixamos de viver um estilo de vida cristão, ela negou, aí perguntei "quando foi a última vez que tu leu a Bíblia?" e ela não soube responder. Assim, imediatamente concordou comigo)]

 ~~~~~~ Estamos chegando ao fim do texto, juro! ~~~~~~~~

Assim, com esse retorno à igreja e a um estilo de vida que nos faz sentir pisando mais 'firme', acho que chegou a hora de eu deixar de ser preguiçoso e enrolado com Deus e dar um passo adiante, reservando o Sábado como o Dia especial que Ele nos ensinou a guardar.

Até porque ao longo desse tempo, desse período em que estou "enrolando" Deus, criei um raciocínio que me faz muito mal. Sabe quando Nabucodonosor mandou todo mundo se ajoelhar diante da estátua dele, e só Ananias, Misael e Asarias não se dobraram? Os outros, os que se dobraram, eram judeus como eles. E provavelmente devem ter ficado pensando ou dizendo a Deus "Deus, tu sabe que eu te amo, mas eu vou me dobrar aqui se não eles me matam...". É como se dissessem "deixa eu te negar só um pouquinho aqui Senhor, porque eu não quero me incomodar". E é exatamente o que eu faço. Eu não quero ter o incômodo de dizer aos professores (ou ainda, entrar com processo administrativo) que não posso frequentar as aulas de sexta de noite porque sou sabatista. Tenho preguiça, não quero sair da minha zona de conforto, e isso é muito vergonhoso.

E essa história, do Ananias, do Misael e do Asarias, se tá na Bíblia, é porque deveríamos tomar de exemplo... coisa que não tenho feito. É como se eu estivesse me dobrando aos Nabucodonosores modernos: meus estudos, meu trabalho, minhas atividades extra que envolvem só a mim, só a mim, só a mim. E nunca tenho tempo pra Deus, porque não reservo justamente o tempo que Ele definiu como Sagrado pra Ele... Sexta de noite não é dia de aula, é dia de pegar a Bíblia e tirar pra um estudo mais detalhado, ou juntar os amigos ou a família pra um churrasco. Sábado de manhã não é dia de aula, é dia de dormir até mais tarde, ou de fazer algum trabalho social. Sábado de tarde não é hora de estudar pra prova, é hora pra tomar um chimarrão ou uma cerveja com a namorada, ou simplesmente descansar sozinho e pensar sobre a vida e sobre como Deus é bom e a Sua misericórdia é grande. E nós temos esse tempo. E Ele sabe entender os nossos períodos de transição. Isso vale muito mais do que entregar 10% do teu salário num envelopinho pra sabe lá o que; isso é saúde mental, é Sagrado, é um momento de lazer estruturado dentro da rotina - o que é cada vez mais raro nesse "mundo moderno" das pessoas.

...eu não sei muito bem como terminar esse texto... eu disse tudo o que queria e pronto, estou feliz com isso. Faz muito tempo que não escrevo assim, com essa vontade maravilhosa de compartilhar uma experiência espiritual :) Se isso trouxer paz e inspiração a alguém, fico muito grato. Shabat Shalom e só a Deus a Glória,  Amém :P

Paztejamos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Dá um apoio moral pro blogueiro aqui.
Comenta aí ó: